Destaques, Liturgia › 05/02/2018

A quarta-feira de cinzas e a espiritualidade quaresmal

Por Gabriel Ribeiro de Oliveira, seminarista – filosofia

Está para começar o tempo litúrgico que é o mais envolto de mistério, reflexão e oração. A quaresma vem com um axioma de poucas palavras, mas com uma grande mensagem: “Convertei-vos e crede no evangelho” (Mc 1, 15)). As cinzas vêm como um símbolo que nos lembra que somos mortais e que esta vida não é perpetua, mais haverá outra, junto de Deus. Estes quarenta dias são marcados por muitos símbolos e mensagens profundas, cabe a nós hauri-los e vivenciar o seu sentido.

No antigo testamento o povo de Israel caminhou quarenta anos no deserto em busca da terra prometida. Jesus, segundo os evangelhos sinóticos, ficou quarenta dias no deserto fazendo jejum e penitência em preparação para a sua vida pública. O número quarenta tem sentido de preparação e penitência. Da mesma forma que o povo de Israel caminhou em busca da terra prometida, nós cristãos caminhamos pelo tempo quaresmal nos preparando para a celebração dos mais santos mistérios que são a paixão, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo, nosso Senhor.

A Igreja abre solenemente o tempo quaresmal com uma das celebrações mais ricas em significado de todo o ano litúrgico, a quarta-feira de cinzas. A imposição das cinzas na cabeça dos fiéis traz um sentido duplo mais complementar: conversão e consciência de mortalidade. A Igreja nos chama a conversão nos conscientizando de que somos pó e ao pó voltaremos. As cinzas usadas nesta celebração têm origem na queima das palmas usadas no Domingo de Ramos do ano anterior, isto vem nos lembrar que vamos morrer, mas ressurgiremos com o Cristo Glorioso e Ressuscitado.

A quaresma é como se fosse um grande retiro espiritual, que o fiel é convidado a vivenciar, assim como Jesus no deserto, uma experiência de profunda reflexão, jejum e oração. Muitos são aqueles que praticam, neste tempo quaresmal, penitência como abstinência de algum alimento ou atividade prazerosa ao próprio. O jejum e penitência nos prepara para resistir a tentações futuras, como um exercício ou treinamento de resistência. Assim fortificamos a nossa vontade e saímos mais fortes espiritualmente deste santo período.

As igrejas nos quarenta dias que antecedem o tríduo pascal, expressam maior simplicidade nos seus ornamentos. A cor roxa nos traz uma sensação de mistério e interiorização para entrarmos com maior propriedade na espiritualidade proposta neste tempo. No quinto domingo da quaresma, a Igreja indica que se cubram as imagens e crucifixos com pano de cor roxa. Isto se faz porque o tempo quaresmal é dividido em duas partes: a primeira parte (do primeiro ao quarto domingo) está relacionada à conversão dos fiéis; a segunda (a partir do quinto domingo) refere-se à contemplação da paixão do Senhor. Velando as imagens a Igreja nos provoca uma espécie de “jejum dos olhos”, deixando um pouco as nossas devoções e nos concentrando na paixão do Senhor. Velando os crucifixos nos colocamos na espera da sexta-feira da paixão do Senhor, dia em que a imagem do Cristo crucificado é desvelada a adorada. No sábado santo as imagens são descobertas, anunciando um novo tempo de gloria e alegria pela ressurreição do Senhor.

Em cada época, o Senhor propiciou um tempo favorável de penitencia para aqueles que quiserem converter-se. Noé e Jonas anunciaram a penitencia e todos aqueles que os ouviram e seguiram foram salvos. Em nosso tempo temos a quaresma, nela Deus coloca novamente um período de conversão, para aqueles que quiserem ser salvos. A Igreja nos convida a vivencia deste tempo tão rico e espirituoso. Que a vivência da quaresma seja feita como se diz na oração de benção das cinzas, na quarta-feira de cinzas, sendo esta:

“Reconhecendo que somos pó e ao pó voltaremos, consigamos, pela observância da quaresma, obter o perdão dos pecados e viver uma vida nova, à semelhança do Cristo ressuscitado”.