Notícias › 05/10/2015

Arcebispo de Manaus concede entrevista exclusiva sobre o Sínodo da Família

Entrevista exclusiva concedida ao padre Robison Inácio de Souza Santos, presbítero da Diocese de Guaxupé e residente em Roma

Nestes primeiros dias de outono, a chuva e o frescor tornam o clima de Roma muito agradável. Estamos às portas da segunda Assembleia do Sínodo dos Bispos, desta vez Ordinária, sobre o tema: “A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo.” Pelas ruas, já é possível ver muitos padres sinodais, provenientes de todos os cantos do mundo. Em nossa casa, o Pontifício Colégio Pio Brasileiro, está hospedado um padre sinodal muito simples, discreto e com uma vasta experiência missionária.

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Trata-se de Dom Sérgio Castriani, Arcebispo de Manaus. Após o jantar de sexta-feira (02 de outubro), troquei uma dezena de palavras com ele, fiz a proposta de conversarmos um pouco sobre o Sínodo, e com prontidão missionária, Dom Sérgio aceitou. Seguimos até os aposentos do ilustre hóspede e iniciamos o bate-papo. Já digo, em caráter de antecipação, que a conversa foi muito prazerosa, daquelas em que todos os envolvidos se sentem muito à vontade para falar e para ouvir, para indagar e para responder. Falamos com entusiasmo, esperança e serenidade sobre a família e os desafios que a tocam.

Mesmo portando em minhas mãos um minúsculo roteiro, a conversa fluiu com naturalidade. Perguntei a Dom Sérgio: “Qual a principal contribuição que este Sínodo poderá oferecer em vista do trabalho pastoral com as famílias?” Sua resposta foi simples e positiva: “O Sínodo já deu uma importante contribuição que é ressaltar a importância da família. Há um ano estamos falando sobre a família. A família está na pauta das reflexões, das preocupações da Igreja e da sociedade. A família é o lugar das relações. A outra grande contribuição é determinar o que é a família e qual a vocação da mesma. Vocação significa a identidade da família, voltar às fontes. O texto preparatório fala sobre o Evangelho da família, ou seja, a mensagem que a Igreja anuncia como Boa Nova à família. O texto também aborda o tema da família na revelação, na história e no magistério. É fundamental fixar esses conceitos e depois ressaltar a importância da família, positivamente, porque a gente vê muitos pontos negativos. Devemos destacar aquilo que a família é de positivo na construção da Igreja e da sociedade.”

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No tocante aos temas polêmicos, assim ponderou:

“O Sínodo deve abordar alguns temas polêmicos que são desafios para a família hoje, como: a violência familiar; a homossexualidade; o relativismo; as relações muito breves entre as pessoas; a superficialidade; e a cultura do descarte. E depois propor uma pastoral familiar. O Sínodo não é tão dogmático, mas ele é pastoral. O Sínodo lançará luzes sobre a pastoral familiar para que esta se reforce e descubra quais caminhos trilhar.”

Aproveitei a tranquilidade e o espírito de acolhida de Dom Sérgio e quis tornar a conversa um pouco mais tensa, propositalmente. “O senhor acredita que para alavancar o trabalho pastoral com as famílias, seja necessário mudar o ensinamento, a disciplina da Igreja sobre o sacramento do matrimônio?” Sem delongas, já me disse: “Não, acho que não. Pelo contrário temos que afirmar a beleza do sacramento do matrimônio. O sacramento do matrimônio é belo! É reflexo do amor de Deus, da aliança de Deus com a humanidade, do amor de Cristo pela Igreja. Então, a beleza do sacramento matrimônio tem que ser reforçada. Não é diminuindo as exigências do sacramento que a agente facilita as coisas. O ideal tem que ser reforçado, tem que ser conservado, pois é fruto de uma grande tradição da Igreja (…). Agora o que temos que levar em conta é a misericórdia, pois o ideal não é vivido por todos. Não é culpa das pessoas.”pintura-sagrada-familia-50x50-cod-515

E fez uso de sua experiência de pastor zeloso para ilustrar o seu pensamento:

“Na minha longa experiência pastoral, e já são 37 anos, trabalhando com casais, celebrando casamentos, lindando com casais separados, com casais divorciados e com casais de segunda união, vejo que o problema não é que as pessoas não acreditam no sacramento, nem todas conseguem viver o ideal. O que as impede de viver o ideal? Às vezes, a miséria, a miséria material, a miséria espiritual … e depois o mundo cruel da pornografia e do erotismo, hoje com acesso facilitado pelas novas tecnologias. As pessoas acreditam no matrimônio e não querem que Igreja diminua o nível do sacramento, elas sonham com esse ideal. Agora temos que ver as causas que levam as pessoas a não atingirem esse ideal e ajudá-las a caminhar em vista do ideal. Existe uma noção na Familiaris Consortio que é a da gradualidade. Nem todos tem o mesmo nível de compreensão, essa compreensão é gradual. Temos que ajudar as pessoas a crescerem na compreensão e na vivência do matrimônio e não reduzir o ideal do sacramento que é a fecundidade, a fidelidade por toda a vida. Esse ideal tem que permanecer.”

Dom Sérgio continuou a conversa com muito interesse e com acurada atenção pastoral. Como o assunto tornou-se um pouco mais tenso, não desperdicei a ocasião e lhe perguntei: “Fala-se de dois Sínodos: um dos padres e outro da mídia sensacionalista. O que o senhor pensa sobre isso?” Mais uma vez a resposta veio rápida: “Olha … é sempre assim. É muito difícil para a mídia entender o que é o mistério da Igreja. Porque para nós que acreditamos, que temos fé é diferente. Somos seguidores de Jesus e o seguimento é fundamental. Temos a nossa fé, temos o Evangelho e a mídia não entende isso. Ela se concentra no lado espetacular. Talvez a culpa seja nossa, pois nem sempre esclarecemos e nem sempre falamos com a mídia. A minha experiência, em Manaus, é de dar muita atenção aos repórteres. Geralmente, são pessoas de boa vontade, mas nem sempre entendem. Às vezes é falta de humildade da parte da mídia que se acha sabedora de tudo.”

Dom Sérgio continua sua resposta, criticando a falta de capacitação intelectual de muitos profissionais da área de comunicação:

“Hoje, temos um fenômeno nos meios de comunicação, não temos mais aquele repórter especializado. Para cobrir o Sínodo, o repórter deveria antes estudar teologia. Isso hoje é falho na mídia que prima mais pela técnica do que pelo conteúdo. ‘O meio é a mensagem’, como dizia McLuhan. A mídia é e será sempre sensacionalista. Quanto mais sensacionalista, mais a notícia vende. A notícia é uma mercadoria que precisa ser vendida. Existe uma mídia séria e cabe a nós, Igreja, conquistar a mídia, tratar bem, dialogar. A gente conhece os jornalistas sérios. Nós, os padres sinodais, somos homens de fé, somos pastores, temos uma concepção de vida e de Evangelho não compreensível à mídia. Por exemplo: Os gestos midiáticos do Papa são de fácil compreensão, mas a interpretação não é fácil. O que leva o Papa a beijar uma criança? A fé. É gesto de fé, profundo, repleto de conteúdo. Isso a mídia não entende.”

DCFC0046.JPGO assunto foi se desenvolvendo com uma cadência especial. Comecei a perceber em cada palavra de Dom Sérgio uma preocupação autêntica com o presente e com o futuro da família cristã, mas tive que direcionar a conversa às considerações finais. Ao elaborar a última pergunta, pensei sobre qual seria a colaboração de um padre sinodal, cujo trabalho é desenvolvido no coração da Amazônia. E assim me expressei: “O que o senhor traz em sua bagagem e qual contributo pretende dar, durante as aulas sinodais?” O bispo conhecedor dos ribeirinhos, dos povos indígenas, da selva e dos habitantes de Manaus, com muita esperança assim me respondeu: “A missão está sempre na fronteira da Igreja. O missionário vive em situações de fronteira. Na Amazônia, nós vivemos uma situação de fronteira. Primeiro, a própria região, a mata, a selva amazônica. Lá também acontece um encontro de culturas, as culturas indígenas, as culturas milenares … Essa região foi invadida pelos seringais. A experiência da invasão do capital é muito recente. A Amazônia sempre foi vista como reserva do Brasil para extração de borracha, de energia e de minério.”

E para concluir, destacou algumas peculiaridades da vivência familiar, na Amazônia, e já adiantou qual será seu contributo, durante a Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos:

“Na Amazônia, a violência familiar é muito grande. A violência no processo de colonização daquela região foi transferida para as relações familiares. Trago também o grande desejo que as pessoas têm de vivência familiar. A experiência da família numerosa também é muito interessante! Na Amazônia você não encontra menores abandonados. Quando morre um casal, quando um menor fica órfão, imediatamente, é adotado. A experiência da adoção é muito bela! É difícil você encontrar uma família que não tenha um ou dois ‘filhos do coração’, como lá gostam de dizer. Durante os três minutos que terei direito, vou falar sobre a violência sexual dentro da família e sobre o tráfico de pessoas. Esses dois problemas são consequências da miséria humana e da miséria moral. São dois assuntos muito sérios. Vou falar não somente para denunciar, mas para mostrar o trabalho de acompanhamento feito pela pastoral familiar em parceria com outras entidades da sociedade civil.”

Agradeci, imensamente, a Dom Sérgio pela sua solicitude e disposição de tocar em temáticas delicadas. A pertinência desses temas é atestada pelas nossas Igrejas Particulares, pelas nossas rodas de conversa, de partilha, de reflexão e de estudo. Acompanhemos o desenrolar dos trabalhos sinodais com esperança, certos de que o Espírito Santo é e será o grande protagonista do Sínodo. Que o frescor deste outono sirva de preparação para a bela primavera que certamente virá, embelezando a Igreja Universal, as nossas famílias e o mundo.