Destaques › 19/03/2018

Da carpintaria de Nazaré aos nossos dias

Por padre Vinícius Pereira Silva, vigário de Campestre

“Creio na comunhão dos Santos”. Rezamos isto todos os domingos na Santa Missa. Mas como esta realidade e esta fé encontra-se esquecida, ou mal compreendida, nos dias de hoje! O Catecismo da Igreja Católica (CIC) ressalta que logo após termos professado nossa fé na “Santa Igreja Católica”, vemos explicado o que esta realidade significa: “Que é a Igreja, se não a assembleia de todos os santos? Comunhão dos santos é precisamente a Igreja” (CIC, 946). Aqui cabe lembrar ainda que quando falamos IGREJA não estamos nos referindo ao templo, ou apenas ao papa, bispo, ou padres. A realidade da Igreja é algo muito maior. Igreja é a reunião dos chamados por Deus, daqueles que, tendo ouvido a voz do Senhor, desejam viver por Ele, com Ele e Nele. Ora, Deus não chama apenas para um momento, ou uma etapa, mas para toda a vida. E aqueles que se encontram com Cristo não veem a morte. “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (Jo 11,25), nos diz Jesus. Portanto, todos os que formam o corpo de Cristo estão misteriosamente ligados entre si, de modo a nunca se romper esta comunhão, mesmo depois da morte física. Os santos não estão mortos, mas vivos! Nós que peregrinamos ainda neste mundo, os que estão se purificando e os que já foram glorificados e estão no céu temos uma ligação espiritual garantida por Cristo. O bem de uns é comunicado aos outros (cf. CIC, 946).

Neste sentido, temos São José. Sua figura nos Evangelhos não nos deixa transparecer muita coisa, mas o que temos é suficiente para nos espelharmos nele e contar com sua proteção. Em primeiro lugar, a bíblia chama José de “homem justo” (cf. Mt 1,19), e “esposo de Maria” (cf. Mt 1,16.19) e precisamente por isso foi capaz de romper com a prática de denunciar uma mulher grávida fora do casamento e acolher aquela que seria a Mãe do Redentor. Como “pai de Jesus” (cf. Lc 2, 33.41.48) não veio a ser apenas um substituto de Deus Pai, mas figurava a paternidade divina sobre Jesus. Contudo, o termo “pai adotivo” talvez não seja o mais adequado, posto que Jesus não foi acolhido como um estranho no seio daquela família. “Não foi José que adotou Jesus como filho, e sim foi Jesus quem adotou José como pai” (SILVA, 2010, p. 106). Embora sua paternidade não seja biológica, ele não é menos pai por isso (Redemptoris Custos, n. 7). Por fim, Jesus é conhecido como o “filho do carpinteiro” (Mt 13,55), o que nos leva a imaginar que seu pai tenha ensinado seu ofício ao filho querido. A carpintaria de Nazaré foi, com certeza, local de aprendizado e crescimento para o Verbo de Deus feito homem. O papa João Paulo II, na sua Exortação Apostólica Redemptoris Custos (RC), afirma que para São José o trabalho é a expressão cotidiana do amor vivido na Sagrada Família. Pelo trabalho o homem torna-se mais homem e se santifica (RC, nn. 22-24). E isto nos atesta também a liturgia ao invocar São José, não apenas como esposo de Maria, no dia 19 de março, mas também como exemplo de trabalhador, em 1º de maio.

Neste ano do laicato, todo o povo fiel, é convidado, seguindo o exemplo de São José, a ser trabalhadores incansáveis na concretização do Reino de Deus. Ser “sal da terra; luz do mundo” (cf. Mt 5,14-16), para a construção e o crescimento da Igreja, e consequente anúncio do Reino. Olhar a vida dos santos é contemplar uma realidade da Igreja, que vai além das paredes do Templo. Uma igreja-pedra não adianta nada se não houver a Igreja-povo. O templo é expressão de que aquele povo se sente Igreja, chamados a servirem ao Senhor. Assim como para São José, nosso trabalho, nossa dedicação deve ser silencioso e humilde, mas com frutos que deixam marcas para a eternidade. Temos a certeza de que a obra não é nossa, mas do próprio Deus, a quem servimos e amamos. Por isso, não devemos nos furtar de nossa missão no seio da Igreja e do Mundo, mas, impulsionados pelo Espírito Santo, ser sinal de Cristo e contagiar pela e para a santidade.

Assim, do mesmo modo que São José cuidou de Cristo, ele cuida de seu Corpo Místico, que é a Igreja. Por isso, sendo ele mesmo membro desta Igreja, é padroeiro Universal da mesma. Se nós estamos sobre a proteção de São José, sua santidade nos atinge e nos motiva a sermos santos dos tempos de hoje. Seu exemplo de homem justo, fiel e protetor, orante e trabalhador nos faz ser incansáveis em nosso trabalho. Apesar da distância temporal, não vejo muita diferença entre a carpintaria de Nazaré e o campo da Igreja hoje. Lá se viveu e aqui se vive o trabalho amoroso, a oração laboriosa e, principalmente, o serviço a Cristo. E se São José manifestou o amor de Deus Pai para Jesus, queremos nós, como Igreja, manifestar ao mundo o amor de Cristo, que nos toca e nos faz caminhar, como sal que dá sabor e sentido à terra; como luz que ilumina e afugenta as trevas, que querem dominar cada vez mais; como fermento na massa, que mesmo sendo em pequena quantidade, é capaz de levedar e transformar a realidade. Nesta quaresma, período em que está inserida a solenidade de São José, nós, como Igreja, também percebemos que precisamos de conversão. Queremos, com espírito de arrependimento e contrição, viver a Páscoa de Jesus, a fim de caminhar melhor rumo ao Reino Celestial, para com a Virgem Maria, São José e todos os santos, louvarmos a Deus, autor da vida, eternamente.

 


Referências:

CATECISMO da Igreja Católica. Edição revisada de acordo com o texto oficial em latim. São Paulo: Loyola, 1998.

JOÃO PAULO II, papa. Exortação apostólica Redemptoris Custos, 1989. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/apost_exhortations/documents/hf_jp-ii_exh_15081989_redemptoris-custos_po.html>. Acesso em: 13 abr. 2014.

SILVA, Marcionei Miguel da. José no mistério da encarnação. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2010.