Destaques › 04/01/2018

Dom Frei Inácio João Dal Monte: Saiu o semeador, que semeou a Paz e o Bem…

Por padre Clayton Bueno Mendonça, administrador paroquial em Nova Resende

Ao perceber a forte relevância da personalidade de Dom Frei Inácio João Dal Monte, OfmCap e a profunda relação dos fiéis católicos com sua pessoa, a Diocese de Guaxupé remeteu à Congregação para a Causa dos Santos um pedido formal para o início da investigação acerca de possíveis traços de santidade de dom Inácio.

O protocolo exigido pela Santa Sé é explicitado nos seguintes documentos: a constituição apostólica Divinus Perfectionis Magister (Mestre e modelo divino da perfeição), de são João Paulo II, e as Normas para Observar na Instrução Diocesana das Causas dos Santos, da Congregação para as Causas dos Santos.

Ao ter o pedido aceito pela Congregação para a Causa dos Santos, a atual fase da causa, será iniciado o processo de investigação da vida, dos escritos e dos depoimentos de pessoas que conviveram com o bispo. O objetivo é avaliar, a partir dos documentos e dos testemunhos, a santidade vivenciada por dom Inácio. Conheça a trajetória de dom Inácio João Dal Monte.

Primeiros anos e vocação

João Dal Monte nasceu na Fazenda Monte Alegre, em Ribeirão Preto (SP), no dia 28 de agosto de 1897. Seus pais foram Luiz Dal Monte e Ângela Guglielmini Dal Monte. Recebeu solenemente o Santo Batismo na Paróquia São Sebastião da cidade de Ribeirão Preto no dia 31 de outubro de 1897 pelas mãos do vigário coadjutor Padre Pedro Gaggino. Seus padrinhos foram Jacintho Scandini e Francyen Uchella. Quando faleceu o pai, Luiz, ele foi com a mãe para Mussolente, na Itália, quando tinha 3 anos.  Com a morte da mãe, Ângela, foi recebido e educado na casa de seus tios.

Em 3 de setembro de 1908, obedecendo à voz do Senhor, entrou no seminário de Rovigo. No dia 15 de setembro de 1912, recebeu o hábito capuchinho. Desde então, passou a ser chamado frei Inácio de Ribeirão Preto, nome que adotou até ser nomeado bispo. Em 21 de setembro de 1913, emitiu os votos temporários. Frei Inácio estava na Itália quando iniciou a Primeira Guerra Mundial e foi obrigado a servir ao exército italiano, embora fosse brasileiro. Assim, ele narra em sua Oitava Carta Pastoral: “Por quatro anos a fio, ficamos na antecâmara do inferno e por dois anos contínuos, no meio dos sofrimentos das trincheiras, na luta entre a contínua morte, que a todo passo nos espreitava ou nos campos de concentração”.

Retornando ao convento, emitiu sua profissão perpétua no dia 8 de dezembro de 1921, em Veneza. Em 1922, inscreveu-se na faculdade jurídica do seminário patriarcal de Veneza, obtendo o diploma magna cum laude em Direito Canônico (doutorado), em 30 de julho de 1925.

Sacerdócio e Episcopado

No dia 5 de abril de 1924, foi ordenado sacerdote pelo cardeal patriarca Pedro La Fontaine, em Veneza. Nesse tempo, preparava-se um novo grupo de missionários para o Paraná. Frei Inácio insistiu para ser enviado a essa região, mas seu pedido não foi aceito. Isso aconteceu quando um dos missionários adoeceu e, então, ele o substituiu. Foi enviado ao Brasil juntamente com outros seis franciscanos capuchinhos. Partiram de Veneza em 13 de setembro de 1925 e, em Gênova, embarcaram no Transatlântico Duca d’Aosta, no dia 17 do mesmo mês. Chegaram em Santos (SP) em 3 de outubro, e desembarcaram em Jaguariaíva (PR) em 7 de outubro do mesmo ano. Após 20 anos de ausência, o jovem sacerdote voltava à terra querida, com o coração a arder-lhe de zelo pelas almas, sentimentos de um autêntico capuchinho e filho de São Francisco.

Exerceu o ministério presbiteral em Curitiba (PR) e em Campo Magro (PR). De 1932 a 1937 foi superior do Convento de Botiatuba (PR). De 1937 a 1938, vigário de Jaguariaíva (PR), e de 1939 a 1949, de Santo Antônio da Platina (PR). Tornou-se custódio provincial dos capuchinhos do Paraná e de Santa Catarina durante doze anos, até 1949. Foi sempre um religioso humilde, obediente. Soube cativar a estima de todos desde a chegada ao Paraná, dentro e fora do convento.

Quando comemorava seu jubileu de prata sacerdotal, foi nomeado bispo pelo papa Pio XII em 15 de março de 1949, como bispo titular de Agbia e bispo coadjutor da Diocese de Joinville (SC), com direito à sucessão. Assim nos narra Dom frei Inácio: “A voz de Pio XII, de saudosa memória, nos fez trocar de hábito e nos colocou como bispo coadjutor de Joinville, sob o cajado do santo e ilustre bispo Dom Pio Freitas da Silveira, de quem conservamos sempre a lembrança do amor e zelo pela causa de Deus” (Oitava Carta Pastoral, 1962). Foi ordenado bispo no dia 26 de maio do mesmo ano, em Santo Antônio da Platina (PR), onde era vigário. Adotou como lema episcopal Exiit qui seminat (Saiu o Semeador), iluminado pelos evangelhos sinóticos (cf. Mt 13,3; Mc 4,3; Lc 8,5).

Bispo de Guaxupé

Depois de três anos de proveitoso apostolado auxiliando dom Pio de Freitas, em Joinville (SC), foi nomeado bispo residencial da Diocese de Guaxupé, no dia 21 de maio de 1952. Também narra em sua Oitava Carta Pastoral: « Finalmente a mesma voz nos colocou nesta diocese a apascentar estes bons filhos e a cuidar da porção mais escolhida, sacerdotes e seminaristas ». No domingo, 7 de setembro do mesmo ano, tomou posse durante uma cerimônia realizada no Palácio Episcopal, perante inúmeras pessoas.

Segundo o historiador Wilson Remédio Ferraz, em 1953 Dom Inácio iniciou o movimento para a implantação do orfanato “Casa da Criança”, sobre o que ele  comenta: “Ampará-las é dar-lhes formação, através de estabelecimento próprio, resguardando-as assim dos perigos que as cercam; é tarefa das mais grandiosas. E por assim dizer uma das maiores obras de caridade”. Celebrando na Catedral, em 29 de novembro de 1953, o bispo anunciou que a Câmara Municipal havia autorizado a doação, ao bispado, de uma área localizada na Praça dos Expedicionários. Nesse local se instalaria o Instituto Dr. José Costa Monteiro (Casa da Criança), para abrigo e educação de meninas pobres. Nas décadas de 50 e 60, foi construído o prédio para o Seminário São José (atual prédio do Centro Universitário da Fundação Educacional Guaxupé) e, para isso, Dom frei Inácio, incansavelmente, percorreu toda a diocese em busca de recursos financeiros.

Em 1960, concluiu-se a construção da atual Catedral Diocesana de Nossa Senhora das Dores (iniciada em 15 de setembro de 1943, por dom Hugo Bressane de Araújo) e solenemente dedicada pelo núncio apostólico no Brasil, dom Armando Lombardi, no dia 19 de março. Dom frei Inácio muito contribuiu para o término da obra. No dia 23 de setembro de 1962, Dom frei Inácio esteve presente à instalação canônica da Província Eclesiástica de Pouso Alegre (MG), a qual Guaxupé passaria a pertencer. De 11 de outubro a 8 de dezembro de 1962, participou da Primeira Sessão do Concílio Vaticano II, em Roma.

Enfermidade e morte

Em janeiro de 1963, foi acometido por trombose arterial. Não obstante todos os cuidados médicos, houve necessidade de amputar-lhe a perna direita, em Poços de Caldas. Cercado de padres, após 3 dias de longos padecimentos, Dom frei Inácio faleceu numa quarta-feira, 29 de maio de 1963, às 13h05min, vítima de trombose cerebral, na Santa Casa de Guaxupé. Estava com 65 anos.

Arcebispos, Bispos, Sacerdotes, monjas, fiéis e amigos cercavam o leito de morte do queridíssimo Bispo. Todos rezavam as orações próprias dos agonizantes. Foi uma cena profundamente comovente e dolorosa.

Constatado óbito, feito o embalsamento, o corpo de dom Inácio foi transladado para a Capela de Nossa Senhora Aparecida, onde permaneceu em exposição à visitação pública. No dia 30 de maio, deu-se início ao cortejo para a Catedral Diocesana onde ficou ainda por um dia exposto à visitação pública. O cortejo que conduziu os restos mortais do grande Bispo foi impressionante, notando-se a profunda emoção do povo e do clero.

O sepultamento, oficiado pelo metropolita da Arquidiocese de Pouso Alegre, dom José D’Angelo Neto, assistido por outros cinco bispos, ocorreu na Catedral, com o pranto inconsolável do povo que ficou sem seu bom pastor.

Seu corpo embalsamado foi conduzido pelos cônegos do Cabido Diocesano para a cripta da Catedral. Foi sepultado no lado direito da cripta, no dia 31 de maio, na presença dos bispos mencionados, de diversos sacerdotes, das autoridades civis e dos seminaristas.

Foi verdadeiro apóstolo que, com seu testemunho, soube cativar a simpatia de todos para levá-los a Jesus Cristo. Homem de oração, de penitência e de caridade. Pastor zeloso, fez inúmeras visitas pastorais, escreveu diversas cartas pastorais. O púlpito e o confessionário foram os lugares preferidos de seu pastoreio. Por onde trabalhou, era sempre afável: como pastor, amava o povo e foi querido pelo povo. Um homem santo! Sua figura patriarcal e simples, cheia de bondade e candura, sempre suave, ficará no coração de todos. Dom frei Inácio foi sempre o bispo que a Diocese de Guaxupé se habituou a conhecer e a amar. Marcou profundamente a história da diocese, durante seu pastoreio de dez anos e oito meses, seja pelos seus gestos simples, seja pelos importantes trabalhos apostólicos desenvolvidos com total dedicação à Santa Igreja. Saiu o semeador, que semeou a Paz e o Bem…

Oração ao Servo de Deus, Dom Inácio João Dal Monte

Deus, Pai de misericórdia, fonte de toda a santidade, que concedestes ao vosso servo Dom Inácio João Dal Monte, homem de oração, penitência e caridade, Pastor zeloso da Igreja a graça de vos servir com humildade, mansidão, pureza de coração no trabalho incansável, em favor do vosso povo, no serviço generoso aos pobres, aflitos, crianças e jovens órfãos, bem como a todos, que ele recorreram. Concedei-nos uma fé viva e ardente caridade, que nos conservem unidos em vosso amor e vossa graça. Dignai-vos glorificar o vosso servo e concedei-nos por vossa intercessão o favor que vos peço (pedir a graça). Por Cristo, vosso Filho e Senhor nosso, na unidade do Espírito Santo. Amém!