Destaques › 14/10/2019

ENTREVISTA: “A AMAZÔNIA NÃO É UMA FLORESTA VAZIA, MAS UMA FLORESTA HUMANA”

Entrevista por Assessoria de Comunicação

João Paulo Capobianco é biólogo, ambientalista e consultor, especialista em Educação Ambiental pela Universidade de Brasília e Doutor em Ciência Ambiental pela USP. Foi Secretário Nacional de Biodiversidade e Florestas e Secretário Executivo do Ministério do Meio Ambiente (2003 a 2008), quando exerceu, entre outras, as funções de coordenador do Grupo de Trabalho Interministerial de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia, presidente do Conselho de Gestão do Patrimônio Genético e da Comissão Brasileira de Florestas.

Entrevista concedida ao programa Conversa com Bial, da Rede Globo

Fundou e dirigiu várias organizações não-governamentais no Brasil, incluindo a Fundação SOS Mata Atlântica, o Instituto Socioambiental e o Instituto Democracia e Sustentabilidade, do qual é atualmente vice-presidente. Em 2003, o livro Biodiversidade na Amazônia Brasileira, organizado por ele, recebeu os prêmios de melhor publicação em Ciências Naturais e da Saúde e Livro do Ano, concedidos pela Câmara Brasileira do Livro.

Recentemente, foi veiculado pela mídia e pelas redes sociais, de forma polêmica, o avanço do desmatamento e das queimadas na região amazônica. Como você analisa esse fato?

A questão do desmatamento não é uma questão de opinião, é uma questão de dados. Este ano aconteceu um fato extremamente grave, porque além dos alertas de desmatamento terem aumentado muito, aumentou também o índice de queimadas. Sempre há queimadas, mas quando você tem queimada e queda de desmatamento, significa dizer que a maior parte das queimadas são em áreas já devastadas, como pastos. Quando você tem queimada junto com aumento de desmatamento, isso significa que você desmatou, esperou a matéria vegetal secar para pôr fogo, consolidando o desmatamento. Não há a menor dúvida que o desmatamento está em alta, qualquer interpretação diferente disso não faz nenhum sentido. E isso está comprovado pelo INPE, por uma outra organização de monitoramento, o Brimazon, e também é compatível com os dados da [agência espacial americana] NASA. Não existe polêmica, foi criada uma falsa polêmica, como se os dados estivessem errados ou que tivessem algum interesse em criar problemas para o governo. Não faz sentido. A realidade é que o desmatamento está em alta.

Como a tecnologia contribui para o monitoramento de um território tão grande?

O Brasil tem o maior sistema de monitoramento de florestas tropicais do mundo. Eu trabalho com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) há muitos anos e acompanho a elaboração das análises e dos relatórios, conheço a seriedade do trabalho. Até 2003, o sistema de monitoramento do INPE fazia análises anuais e esses dados eram publicados no ano seguinte, o que ocorreu num ano era confirmado no outro ano. Na verdade, havia uma defasagem de tempo muito grande porque a Amazônia é um continente, são mais de 200 imagens de satélite para serem analisadas, é um negócio complexo e caro. A gente chamava isso de contabilidade da desgraça porque se sabia muito tempo depois o que tinha sido perdido.

Em 2003, nós elaboramos o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento da Amazônia para mudar todo esse esquema e propor políticas públicas em tempo real. Uma delas é o sistema Detecção de Desmatamento em Tempo Real (DDTR), encomendado ao INPE, que permitiu produzir os alertas de desmatamento. Com base nesses alertas em tempo quase real, o INPE produzia as informações e, logo em seguida, a gente reorganizava toda a ação de fiscalização, mudando todo o sistema de controle da Amazônia, além de outras medidas, conseguimos uma redução do desmatamento em 80%. O DTTR é muito importante porque os dados mostram como está a tendência [de desmatamento] e a gente usa os dados para calibrar a fiscalização.

Como você caracteriza a presença das populações locais na Amazônia e sua situação social?

A floresta, enquanto estrutura biológica, e na qual estão inseridos vários grupos humanos, não só indígenas, mas extrativistas, quilombolas, castanheiros, babaçueiros, açaizeiros, pessoas que trabalham com fibras ou com extração de óleos. Só quem não conhece a Amazônia e nunca teve contato com essas comunidades consegue olhar para aquela região e perceber que aquilo é pobreza e miséria. Isso é um absurdo, é claro que as populações precisam de uma série de benefícios da chamada civilização moderna, medicina e odontologia, apoio geral, acesso à tecnologia e comunicação. A relação entre essas comunidades e a natureza é uma relação estabelecida há muitas gerações, no caso dos índios, há milhares de anos. Eles sabem manusear as coisas, eles sabem extrair da floresta um conjunto de riquezas que lhes permite manter sua vida e sua cultura. Ao contrário do que as pessoas imaginam, a Amazônia não é uma floresta vazia, mas uma floresta humana, as pessoas convivem com a floresta há milhares de anos, muito antes dos brancos ancorarem no litoral brasileiro. A Amazônia é habitada permanentemente em alguns casos ou temporariamente em outros.

E qual o impacto da presença dos não-locais, que não estão integrados ao modo de ser dos nativos?

Nós, os brancos, não sabemos, não conhecemos a floresta. A atividade econômica que nós sabemos fazer é a substituição da floresta pela agricultura e pecuária, então a Amazônia vive um dilema porque os povos primitivos que estão lá detêm a tecnologia do uso da floresta e os avançados, que somos nós, não temos essa tecnologia, mas somos muito mais fortes e poderosos. Então, nós estamos substituindo a floresta pela pastagem e pela agricultura, perdendo toda a riqueza que a floresta tem. Isso se dá com um grande impacto social. Quando estava no governo, nós propomos e aprovamos uma lei no congresso chamada de gestão de florestas públicas que permitia, em vez da substituição da floresta, o seu uso econômico e sustentável com um novo ciclo na região. Essa lei contém cláusulas que garantem o acesso temporário de populações tradicionais locais para fazer a extração das substâncias e dos produtos não-madeireiros que elas utilizam.  A ocupação da Amazônia não é apenas um desastre ambiental, mas socioambiental, porque é feita à custa de comunidades humanas que são barbaramente expulsas e desalojadas ou que têm sua fonte de subsistência destruída com o desmatamento. A destruição da Amazônia é a destruição de um patrimônio ambiental, social e de reverberação internacional, em função da regulação de ciclos climáticos em que a Amazônia interfere diretamente por ser a maior área de cobertura florestal de toda a região tropical do Equador.

Qual a importância das instituições sociais, como a Igreja Católica, discutirem as causas ambientais?

É muito comum se classificar tantas lideranças de defesa da conservação da Amazônia como inimigos do progresso, despreocupadas com o não acesso das populações locais ou ligadas à esquerda. Quando uma liderança planetária, como o papa Francisco, assume isso sem nenhuma vinculação partidária ou corrente ideológica, mas como defensor da civilização humana, incluindo todos os tipos, credos, raças e classes sociais, isso coloca o problema no lugar real. A encíclica [Laudato Si] foi extremamente importante, ela se transformou numa ferramenta de discussão entre as pessoas que não estão ligadas à questão ambiental, mas estão ligadas à questão humana, das relações entre as pessoas e a natureza. Agora, o sínodo coloca em debate algo a favor de todos, não é nada contra ninguém, contra um governo ou contra o agronegócio. Ou nós construímos relações humanas com base em valores, em fraternidade, em compreensão e em inclusão ou nós não vamos chegar a lugar nenhum.

Muitas vezes, o argumento do potencial econômico é levantado como fator em prol da utilização das áreas de preservação para atividades rentáveis. Como analisa isso?

Nós não podemos discutir o que está acontecendo na Amazônia, medindo danos econômicos, porque há muitas substâncias, enquanto o lado mais importante é o civilizatório. O ser humano na sua relação entre si e com a natureza. Nós não queremos preservar a Amazônia porque ela é muito rica e pode nos dar muito dinheiro, mas porque ela é um valor, ela é algo que contempla a natureza com a relação humana, com as populações etnicamente diferenciadas com conhecimentos e saberes muito diversos. A Amazônia é um caldeirão ambiental, étnico e cultural.

É perceptível o uso das redes sociais como espaço de debate público, especialmente da causa ambiental. Você considera positiva a reverberação do assunto nesse ambiente novo?

As redes sociais constituem um novo paradigma de comunicação. Ampliou de forma exponencial a nossa capacidade de ter acesso à informação, de colocarmos nossas opiniões. As redes sociais são um ganho, por outro lado, elas têm alguns vícios. Porque, infelizmente, uma mentira repetida vira verdade. Até recentemente, antes das redes sociais, o mecanismo de comunicação ampla era a imprensa convencional, que tem problemas, obviamente, mas se baseia em fatos e sempre garante o contraditório, na maioria das vezes. Já as redes sociais não têm mediação nenhuma, você recebe uma informação e a repassa, e essa informação circula, sem ouvir o contraditório, sem a fonte. O risco de você ser vítima de informações absolutamente incorretas ou inverídicas é muito grande. Foi o que aconteceu com a questão do desmatamento, isso nunca tinha acontecido. Nos anos anteriores às redes sociais, o INPE divulgava, a imprensa publicava e não tinha polêmicas sobre os dados, tinha polêmica em relação ao governo. Hoje, alguém analisa esse dado, [confronta] com uma informação da NASA que diz que não é isso [a realidade dos fatos]. Nosso papel como lideranças sociais, hoje, é buscar a informação correta e repassá-la, sempre pautando nossa participação nas redes sociais com dados e fatos junto com a opinião. Nós temos uma enorme responsabilidade de conversar com as pessoas, expor esses dados para as pessoas construírem suas próprias opiniões a partir de informações verdadeiras.

Diante da realidade ambiental no Brasil e no mundo, é possível ainda ter esperança?

Eu acredito nisso desde que eu comecei a trabalhar na questão ambiental. Se você olhar o quanto nós avançamos é impressionante. Se olharmos hoje em comparação com 30 anos atrás, é uma diferença brutal. A reação das pessoas, hoje, diante desse quadro absurdo de retrocessos na questão ambiental que culminou no avanço do desmatamento da Amazônia, é muito forte. Tivemos passeatas no Brasil inteiro, não por questões políticas, mas pela proteção e valorização da Amazônia. O próprio governo mudou de postura, apesar dos equívocos; agora cabe à sociedade manter a pressão. Eu tenho esperança de que a gente, de fato, possa mudar o caminho. Os fatos recentes mostram que a população brasileira está ligada nesse assunto, se preocupa e não quer ver a Amazônia e sua população destruída. Eu sou um otimista realista, eu sei que as coisas não serão fáceis e nem acho que estão resolvidas, temos que trabalhar muito, esclarecendo, levando informação e estimulando o lado bom das pessoas.