Estudo dos Evangelhos › 21/10/2016

Evangelho de Lucas (20) – Como construir uma torre

por padre José Luiz Gonzaga do Prado

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Janela

Jesus está subindo (para Jerusalém, para a cruz, para Deus) e grandes multidões querem acompanhá-lo. Ele se volta para elas e diz: “Quem não deixa tudo, a própria família e até mesmo a vida, quem não carrega a sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo.” E faz as comparações da torre e da guerra.

Quem vai construir, primeiro se senta para ver se tem como terminar. Se não tem, não começa. Quem vai para a guerra, primeiro examina se pode vencer, se não pode, pede a paz. “Assim – termina Jesus – quem não deixa tudo não pode ser meu discípulo.”

As comunidades apostólicas

As comunidades que nos deram este Evangelho estavam nas grandes cidades de tradição grega ou romana do Império. O sonho aí era ter prestígio e riqueza e gozar a vida.

Corinto, por exemplo, com seus dois portos, um dando para o oriente e outro para o ocidente, era uma esquina do mundo. Ali corria dinheiro e muito trabalho escravo. No templo de Afrodite atuavam mil prostitutas sagradas, as festas de Dionísio eram de bebida e farra. As religiões idolátricas tornavam tudo sagrado.

O Jesus que se ia apresentar para as multidões desses lugares tinha mesmo que dizer “deixa tudo ou não queiras ser discípulo”. Não é possível “fazer uma média”.

As comunidades hoje

O símbolo do domínio português no Brasil foi a cruz. Mas a primeira coisa que os reis católicos fizeram no Brasil, além de se apropriar do território que já tinha donos, foi usar o trabalho escravo, dos índios e, depois, dos negros.

Os índios que se deixavam batizar, deixavam-se escravizar. Os negros, querendo ou não, eram batizados antes de desembarcarem. O batismo tornava tudo sagrado. Se em Corinto havia a prostituição sagrada, aqui havia a escravidão sagrada.

A cruz era anunciada aos escravos para fazê-los se conformar, aceitar os sofrimentos que lhes impunham. Isso ainda está na cabeça de muita gente: “Jesus sofreu, nós também temos que sofrer”.

Cruz não é sofrimento imposto, é luta assumida. Cruz é dar a vida em favor do outro, sacrificar-se em benefício da vida, assumir a pobreza e a humildade para que todos cresçam. Não basta carregar a cruz, é preciso ir pelo mesmo caminho de Jesus, até a vitória da vida, a ressurreição.