Estudo dos Evangelhos › 06/06/2018

Evangelho de Marcos (17) – Ir para casa sem entrar no povoado

Janela

Nosso Evangelho deste ano traz um episódio (Mc 8,22-28) estranho. Quando Jesus chega ao povoado de Betsaida, levam-lhe um cego, pedindo que toque nele. Jesus o leva para fora do povoado, põe-lhe saliva nos olhos e impõe-lhe as mãos. O cego começa a enxergar, mas ainda confunde gente com árvore. Jesus impõe-lhe as mãos sobre os olhos e ele começa a enxergar claro, mesmo de longe. Jesus o manda para sua casa proibindo-o de entrar no povoado. Como ele poderá ir para casa sem entrar no povoado onde morava?

A comunidade Apostólica

A maioria das traduções atuais tenta disfarçar a incoerência, dizendo que Jesus o despediu e não “mandou para a sua casa” como está no grego. Alguns copistas antigos modificaram a segunda parte para não contes a ninguém no povoado. O fato é que a comunidade que nos deu o Evangelho não o lia como verdade histórica, mas como narrativa simbólica.

Ir para a sua casa, significava ir para a sua comunidade cristã, ir para o seu ambiente de fé. Entrar no povoado significava aceitar a mentalidade da cidade, do Império, pois Betsaida havia sido transformada por Herodes em cidade grega. O Batismo era chamado de “iluminação”, o discípulo é iluminado, tem os olhos abertos, enxerga a realidade com os olhos de Deus. Mas, se aceitar novamente o modo de pensar, a cultura do Império, se entrar na cidade ou deixar a cidade entrar nele, voltará a ser cego. Só na comunidade, a sua casa, onde uns abrem os olhos dos outros, ele enxergará cada vez mais longe.

As comunidades hoje

Infelizmente perdemos a noção de que o discípulo de Jesus deve ter um olhar diferente, deve ser capaz de enxergar mais profundamente. Achamos muitas vezes que o cristão é um acomodado, um conformado, um defensor dos critérios do Império atual, o capitalismo, o mercado.

Não. O cristão é alguém que se afastou da maneira de pensar deste mundo e agora enxerga diferente, enxerga claro, mesmo de longe, não é capaz de aceitar a lógica do mercado. Vê que a competição leva uns a engordarem demasiadamente, enquanto a grande maioria, os incompetentes, os vencidos emagrecem, vivem como excluídos ou são eliminados. Vê que isso é o oposto do reinado de Deus. Mas, se entra na cidade, se ele se deixa conduzir pela cultura global, vai começar a confundir coisa com gente e acabará cego de novo.