Destaques › 20/02/2020

FRATERNIDADE E VIDA: DOM E COMPROMISSO

Texto: Assessoria de Comunicação | Imagem: Divulgação – CNBB

A Campanha da Fraternidade (CF) 2020 traz um tema pertinente para a caminhada eclesial do Brasil: a vivência da caridade através da expansão de uma cultura e uma práxis samaritana como paradigma para o envolvimento de todos os batizados na realidade social do país. 

O objetivo geral da CF 2020 indica a necessidade de um comprometimento para todos os cristãos na luta contra a indiferença e a exclusão, instâncias inimigas da Vida: “Conscientizar, à luz da Palavra de Deus, para o sentido da vida como Dom e Compromisso, que se traduz em relações de mútuo cuidado entre as pessoas, na família, na comunidade, na sociedade e no planeta, nossa Casa Comum”.

Inserido no mundo, o cristão é chamado a vivenciar essa experiência de modo consciente da realidade que o cerca e também de seu papel como discípulo do Mestre Jesus, que entrega sua vida no gesto doloroso e, ao mesmo tempo, amoroso na Cruz. 

A reflexão promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) aponta diretamente situações e posturas que atingem a dignidade humana em diversas dimensões: a desigualdade social, o Brasil ocupa a 9ª posição entre os países mais desiguais do planeta; o aborto e o abandono infantil, uma relação de profundo desprezo pelo nascituro e o estabelecimento de uma cultura do descarte; o desemprego, que torna vulnerável mais de 12% da população; as doenças psicológicas, como a ansiedade, a depressão e o estresse; a violência contra povos indígenas e a perda de suas terras; a luta no campo e pela posse da água; a violência contra mulheres, com aumento considerável de feminicídio. 

É preciso repensar profundamente as relações humanas e os fundamentos que as constituem, em vista de superar o individualismo e a mercantilização da vida, que impedem que se olhe para a Criação como Dom e Compromisso. Esse clima social acentuadamente marcado pela indiferença e pelo ódio impede que a justiça e a fraternidade possam realmente surgir como elemento transformador da realidade. 

Como comunidade discípula, a Igreja tem o desafio de primeirar a ação solidária, pois esse compromisso no cuidado com o outro é vivência concreta da mensagem anunciada e vivida pelo Mestre Jesus. 

Elemento fundamental para a vivência da caridade como proposta de vida é a superação de uma mentalidade retributiva da justiça, que pune infrutiferamente, por uma visão restaurativa, nascida da misericórdia e disposta a favorecer uma verdadeira reparação dos danos causados entre todos os envolvidos. Essa concepção tem sua origem numa verdadeira atitude contemplativa em compreender o amor gratuito de Deus ao criar a humanidade e estabelecê-la como cooperadora da Criação. A generosidade divina deve gerar gratidão no ser humano e também um esforço para o resgate do sentido da vida, de modo a favorecer os dons proporcionados por Deus. 

Pela experiência da fé e da caridade e pela urgência das dores e dos sofrimentos da humanidade, exige-se, obrigatoriamente, uma organização da comunidade e da sociedade, superando uma visão paternalista e assistencialista que não ofereça a oportunidade de uma emancipação dos sujeitos. O caminho do afeto é decisivo para o cuidado entre irmãos e irmãs. Sem essa dimensão, corre-se o risco de estabelecer relações desiguais e superficiais, que não transformam as vidas tocadas pela verdadeira fraternidade.