Animação Vocacional › 16/05/2016

Maria: modelo da Igreja e do vocacionado

maria

Para o mês de maio, tradicionalmente dedicado à Maria, gostaríamos de compartilhar em nosso espaço vocacional a reflexão feita por um vocacionado ao sacerdócio acompanhado por nosso Serviço de Animação Vocacional.

“Poços de Caldas, 08 de maio de 2016.

Caríssimos Padre Eder e Seminarista Dione:

A paz de Cristo esteja sempre convosco! Esta quinta carta é a resposta às provocações feitas pelo texto “Virgem Maria: mãe e mestra, modelo da Igreja e do vocacionado”. […].

Todo o teor da narrativa da Anunciação do anjo Gabriel à Virgem Maria é muito belo e significativo. Ele sinaliza muito claramente qual é a relação que Deus quis (quer) estabelecer com a humanidade: sim, somos seus servos, seus escravos, porém enquanto nosso Senhor, Ele não impõe, não obriga e não age de modo coercitivo, mas convida-nos a participar ativamente de seus projetos. Ele é o Todo-Poderoso que, por amor e generosidade, quer contar conosco – ainda que não necessite de nossa ajuda – para fazer seu Reino de amor acontecer desde já.

Maria, mãe e mestra, é o modelo da Igreja e do vocacionado porquanto, primeiramente, é humana. Na sua humanidade vemos a representação da nossa. A Imaculada, tão humana quanto nós, pelos méritos de sua fé e sua postura ante a vida, mereceu trazer Jesus Cristo no ventre. Cabe–nos buscar semelhantes fé e virtudes, para que nossa existência seja um meio de glorificar o Altíssimo.

Todavia é necessário que nos espelhemos na figura de Maria no tocante a sua coragem e disponibilidade. O ser humano, dotado de ímpar capacidade intelectual, observa, questiona, analisa e delibera sobre tudo ao seu redor; mas também tem uma capacidade sem igual de sentir as coisas com o coração. No contexto da Anunciação, a jovem consentiu participar daquilo que Deus lhe propunha através do anjo, porque – creio eu – no seu coração e na sua razão havia coragem e disponibilidade. Ela era fiel à sua fé e, discernindo com cuidado e com carinho sobre o que lhe dizia Gabriel, colocou-se por inteiro à disposição do Pai. Se não fosse corajosa ou se estivesse indisponível, sua resposta poderia ser negativa. Se o seu coração estivesse fechado ou não tivesse quebrantado para com as coisas da fé, poderia fugir ou esquivar-se dessa proposta.

Indo um pouco além desse contexto, a pessoa de Maria é modelo de fé que suporta as adversidades com esperança e confiança nas promessas de Cristo. Enfrentou as sete dores, mas permaneceu em pé. Esteve junto à Cruz do seu Filho, mas manteve sua esperança e, ao terceiro dia, pode alegrar-se, pois aquele que trouxera no seio vive verdadeiramente.

Nesse momento, se me permitem, lembro-me de uma canção, cantada em algumas Missas, durante o ofertório, chamada “Sobe a Jerusalém”:

Sobe a Jerusalém, virgem oferente sem igual

Vai, apresenta ao Pai teu Menino: Luz que chegou no Natal.

E, junto à sua cruz, quando Deus morrer, fica de pé.

Sim, Ele te salvou, mas o ofereceste por nós com toda fé.

 Nós vamos renovar este Sacrifício de Jesus:

Morte e Ressurreição; vida que brotou de sua oferta na Cruz.

Mãe, vem nos ensinar a fazer da vida um oblação:

Culto agradável a Deus é fazer a oferta do próprio coração.

Maria, valente e ousada, ofertou a Deus tudo o que era e tinha. Ouso dizer que despojou–se dos próprios projetos (ora, estava noiva, pretendia casar-se e, constituída sua família, viveria ordinariamente os seus dias), porém, ao aceitar tal proposta, que muito se distanciava dos possíveis sonhos de uma jovem daquele contexto, foi conclamada Bem-Aventurada.

O versículo que mais me chama a atenção é o 38, no qual o “Fiat” é pronunciado por Maria. É nesse momento que dá o seu “sim” à proposta de Deus para sua vida, proposta que, cada qual a seu modo, é feita a cada um de nós. Nem todos são convidados a portar o Filho do Altíssimo no ventre, uma só foi a digna de tamanha honra, mas todos temos um convite especial (alguns com viés mais radical) para participar do projeto salvífico e de comunhão com Deus.

Assim como discorre o teólogo Afonso Murad, Nossa Senhora analisou, amadureceu, discerniu sobre a ideia que se lhe propunha. Ela foi eleita e convidada; não foi invadida, nada foi por imposição. E, de fato, uma doação de vida em moldes semelhantes carece a anuência daquele que se entrega. É assim que acontece com os vocacionados ao sacerdócio: somos convidados e temos o livre arbítrio de dizer sim ou não ao projeto de Deus consubstanciado na Igreja.

É verdade que, apaixonados e seduzidos, somos incitados a dizer “sim” de modo pouco consciente ou pensado. Porém a saga da jovem de Nazaré ilustra que nossos corações devem estar, sim, em Deus, lá no alto; mas que os pés devem estar firmes no chão, para sustentar nossa posição frente às alegrias e às adversidades. Isso significa deixar-se enamorar pelos encantamentos da proposta de vida que se faz, mas também perseverar e resistir quando a situação não for tão favorável. Isso brota de uma decisão bem fundamentada, irrefutável, tal qual a de Maria, de lançar-se por inteiro e sem reservas à proposta de Deus.

Nesse sentido, meu coração diz “eu creio, mas aumentai a minha fé”, como quem diz também “eu desconfio, mas diminuí minha descrença”. Meu chamado vocacional é uma das coisas mais preciosas que carrego e desejo firmemente vive-lo. Sinto-me tão lisonjeado em perceber que o Pai quer contar comigo! Porém sou de carne e osso, tenho meus receios… Deus me convida a servi-Lo de uma maneira muito nobre e temo não corresponder à altura necessária. Ele quer confiar a mim suas ovelhas e preciso apascenta-las. Ele deseja me remodelar e não sei o quanto isso vai doer… São muitas os desafios… Enfim, percebo algumas inseguranças que poderiam me acovardar, contudo mesmo diante das incertezas e dos receios, sei em quem deposito minha confiança.

É sabido que precisamos sair da nossa zona de conforto. Ponderar sobre aquilo que pode ser dolorido fortalece o sentimento de amor e apreço pelo chamado, que se apresenta desveladamente. Ora, são muitos os desafios, mas tão maiores se mostram as delícias de se oferecer cada um deles à causa de Cristo, vencê-los conforme apraz ao Pai, servir a Deus de maneira tão nobre!

O Senhor que chamou Jeremias, atestando conhece-lo desde o ventre materno, é o mesmo que me chama. Ele me conhece! Ele me conhece desde o ventre da minha mãe e sabe quais são minhas virtudes e negligências, sabe o que posso fazer pelas próprias forças e no que Ele precisa me complementar. Nisso eu creio, mas desejo crer mais firmemente a cada dia: Deus me sustentará, porque me conhece e me ama por inteiro.

Sabendo que o Todo-Poderoso, Senhor de todas as coisas, ama a mim e a todos, que tem providenciado e sempre providenciará tudo para nosso bem, desejo dar meu sim ao chamado que me faz hoje. Sabendo que não devo contar somente com minhas próprias forças, desde já peço a Deus, Nosso Senhor, a perseverança e as virtudes necessárias, pela força do Espírito Santo, para responder positivamente a todas as vocações que Ele me dá: a de ser humano, a de Cristão, a de batizado e, sobremaneira, a vocação sacerdotal. Que eu possa, com Sua ajuda, atender a todos Seus chamados com prontidão, eficiência e alegria!

Esperando ter respondido suficientemente às provocações, concluo pedindo-vos que rezem pelo meu desejo de ser padre, para que ele renda os frutos que a Deus aprouver. Por minha vez, rezarei por vós e por todo o clero da nossa diocese e da nossa Igreja.

Saudações fraternas”.

Por Renan Beraldo Reis,  de Poços de Caldas e vocacionado da Diocese de Guaxupé.