Destaques › 11/10/2017

Nossa Senhora Aparecida: das redes ao coração do povo

Por Jorge Américo de Oliveira Junior, seminarista – Teologia

Cada um tem uma história emocionante construída graças à fé. Aliás, muitas são as histórias que o povo brasileiro costuma contar sobre as graças da santa que se tornou a Padroeira do Brasil. Por isso, nestes 300 anos de bênçãos, vale a pena recordar a história e os milagres que fizeram da pequena imagem, a Padroeira do Brasil. E como as coisas de Deus são simples, assim também foi a descoberta da Imagem em outubro de 1717. Ela estava no fundo do Rio Paraíba do Sul, no Porto Itaguaçu, onde se deu o início de todo acontecimento em torno de Nossa Senhora Aparecida. Foi encontrada por três pescadores, que se tornaram os primeiros devotos da pequena imagem enegrecida pela lama e o fumo das velas, lá em Aparecida.

A PESCA

Diz a história que Aparecida não existia como povoado, o vilarejo pertencia à cidade de Guaratinguetá. A câmara de Guaratinguetá, recebeu uma grande notícia, o governador daquelas terras, vindo de Portugal, o Conde de Assumar, faria uma visita oficial. E eles procuraram então um jeito de agradar o governador.

E assim, João Alves, Domingos Garcia e Felipe Pedroso, lançaram as canoas na água. Juntos, foram em busca de peixes. Dizem que era época de piracema, ou seja, não haviam peixes. Mas, cumprindo ordens, eles foram e lançavam essas redes de um lado para o outro no rio, e nada de encontrar peixes. Mas, a história começou a ganhar um novo colorido. Primeiro, sentem algo enroscado nas redes, era um corpo sem cabeça.  Algumas horas depois, sentiram novamente que tinha algo especial em suas redes, era uma cabeça sem corpo, que encaixou perfeitamente ao corpo encontrado. Dali por diante, cheios de ânimo, foram para a labuta, tinham o que pescar. Tantas vezes lançaram as redes, quantas foram os peixes pescados. A canoa ficou repleta de peixes, foram muitos peixes, mais do que o esperado, mais do que o necessário.

Quando a gente tem fé, Deus multiplica os dons em nossa vida. Assim aconteceu com os três pescadores, assim acontece com a vida de todo aquele que tem fé, que ama a Deus e é devoto de sua Santa Mãe.

AS VELAS

Depois de tirada do fundo do Rio Paraíba, a Santa ficou na casa de Felipe Pedroso. E foi lá que Nossa Senhora Aparecida ganhou seu primeiro oratório. A notícia do encontro da Santa se espalhou e todo mundo queria ver a imagem. Em 1723, Felipe se mudou para a Ponte Alta, é um bairro de Aparecida, construiu um novo altar, onde colocou a Imagem que apareceu na rede, foi quando os devotos começaram a chamá-la de Nossa Senhora Aparecida.

Em 1732, Felipe voltou para o Porto Itaguaçu e deu a imagem para o filho, Atanásio Pedroso. Imediatamente Atanásio se preocupou em construir um oratório para a Mãe de Jesus, a querida Aparecida e convidar os vizinhos para a reza do terço, todos os sábados. Foi onde aconteceu o milagre das velas. Do primeiro para segundo milagre, a história registra uma diferença de vinte anos. Naquele tempo não havia luz elétrica, eles rezavam à luz de velas. Ao rezar, as velas se apagaram, e quando foram acendê-las, as velas se reascenderam.

No coração simples daquela gente, que tinha fé e que tinha luz, eles entenderam: era milagre. Milagre de Deus por intercessão da Senhora Aparecida. Na casa de Atanásio Pedroso, ela mostrou a luz de Deus.

A MARCA DA FERRADURA

Em julho de 1745, uma procissão organizada pelo Padre José Alves Vilela, levou a Imagem para a primeira Igreja dedicada a Nossa Senhora Aparecida. E a Imagem que antes pertencia ao povo de Itaguaçu, passou a pertencer a todo o povo brasileiro. E foi dentro desta Igreja, que por volta de 1828, a santa mostrou mais uma vez o seu sinal.

Existia um sujeito tido como muito valente, e ele dizia que fazia tudo aquilo que lhe dava na cabeça. Reunido lá com os seus colegas lançou um desafio: o desafio era todos entrarem a cavalo dentro da capela. Eles negaram de entrar, o sujeito resolveu entrar sozinho. Lá foi ele, montado no seu cavalo, fazer a sua história.

Em frente à igrejinha da santa, montado no seu cavalo, com aquele coração bravio, ele quis desafiar a Mãe do céu. Quando ele se posicionou para entrar com o cavalo, a pata ficou presa nos degraus da basílica. E esta pedra com a ferradura do cavalo está como testemunha na sala das promessas. Era um homem que tinha tudo, mas lhe faltava a fé. Diz a história que esse homem se converteu e tornou-se um grande devoto de Nossa Senhora Aparecida.

O ESCRAVO

A notícia dos milagres da Santa passou a ser conhecida em todo Brasil. Um escravo fujão, que saiu lá do sul do país e foi andando até Aparecida. Ele também quis rezar para a Imagem. E a santa retribuiu a fé do povo com mais um milagre.

Muito interessante esta história. Ele tinha o nome de Zacarias, e correndo de seu feitor, queria um pouco de liberdade para a vida. Estava cansado dos açoites. Tentava a liberdade, e então correu para o Vale do Paraíba e passando perto do lugarejo de Aparecida, pediu ao seu feitor para ir rezar um pouquinho. Ao chegar à Igreja, ajoelhou-se, havia algumas pessoas que lá rezavam o terço, e só Deus sabe o que pediu em seu coração. As correntes se romperam, vieram a baixo.

A COROA

Festa da Coroação da Imagem de Nossa Senhora Aparecida. 08/09/1904. Acervo Jornal Santuário.

Em 1904, o Arcebispo do Rio de janeiro, Dom Joaquim Arcoverde, teve a ideia de coroar a Imagem de Nossa Senhora Aparecida. A Santa já tinha seu manto e coroa que foram doados pelo povo brasileiro. Na verdade, a primeira coroa foi a mão do pescador e o primeiro manto foi uma rede de pesca. Mas, esta coroação sugerida pelo Arcebispo seria um ato oficial da Igreja. Ele queria dar glória à Mãe de Deus. Roma aprovou o privilégio.

E no dia 08/09/1904 sob os olhares de uma multidão de fiéis, para o tempo, mais de dezesseis mil pessoas, a Santa ganhou uma coroa de ouro, cravejada de diamantes, a mesma doada à Nossa Senhora pela princesa Isabel em 1888. Também ela era devota, também se fez romeira em Aparecida. Mas, o povo queria mais, queria demonstrar mais fé, e por isso. em 1930, o Papa Pio XI declarou Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil.

Os devotos foram aumentando, e tornou-se necessária a construção de uma nova casa para Nossa Senhora. Uma casa maior, capaz de abrigar um maior número de pessoas. Por isso, no dia 03/10/1982, a imagem deixou a Igreja lá do Morro dos Coqueiros, onde tinha ficado desde a inauguração da Igreja Velha, conhecida como Basílica Velha, e foi para sua moradia definitiva, a Basílica Nova, no alto do Morro das Pitas, e os fiéis estão lá, todos os dias, rezando para a Mãe de Deus.

DAS REDES AO CORAÇÃO

Se os olhos são as janelas da alma, as mãos são as portas do coração e pelas mãos de Maria, juntos, caminhamos com Jesus! Os olhos e as mãos são dois sentidos pelos quais expressamos a fé, perceptíveis também na pequena imagem. O olhar diz tudo, não se esquece de nenhuma palavra. As mãos indicam a delicadeza e o cuidado de quem se sente próximo. Olhares e mãos são relevantes entre o corpo do devoto e o corpo da santa.

No Apocalipse Ela aparece como um “Grande Sinal”, e nas redes, aparece como um “Pequeno Sinal”.

Uma imagem pequena: “O senhor olhou para a pequenez de sua serva.”

Uma imagem escura: “Eis aqui a escrava do Senhor.”

Uma imagem de barro: “Ele exaltou os humildes.”

Nesses trezentos anos, milhões de devotos passaram pelo santuário e também deixaram por lá sua história, muitas delas estão registradas na sala das promessas, no subsolo da Basílica. Dos devotos, os olhares e as mãos sempre convergiam para uma mesma direção, a imagem da santa. De norte a sul, leste a oeste, caravanas vão à Aparecida, no Vale do Paraíba, o motivo um só, a fé! São quilômetros, mas, pisar o solo sagrado da terra onde tudo começou e passar bem pertinho do trono da Padroeira do Brasil e ali ficar por alguns segundos, vale a pena todo e qualquer sacrifício. E assim, nestes trezentos anos, muitos foram chegando: uns a pé, outros a cavalo, caminhões, ônibus (jardineiras), motos, bicicletas e romarias. Cada qual se ajeita como pode para chegar. Uns chegam de longe, outros de bem perto, alguns trazem presentes valiosos para se ofertar, milhões chegam de mãos vazias, ajoelham-se diante da santa, juntam-nas em prece e rezam:

Senhora Aparecida, minha viagem foi longa. Bem antes de pegar a estrada eu já estava a caminho. Não precisei de muita bagagem, mas trago a alma revestida de recados. Recados longos e curtos, alegres e tristes, uns engraçados até. A cura quase impossível, bênção para colheitas, empregos, alianças para dedos nus e solitários. Cabeça aberta para aprender. Na chama dessa vela, cores agradecidas: o vermelho de amores reencontrados, o verde de esperanças renovadas, o branco da paz alcançada, o brilho da fé em teu Filho Jesus. Trago todas as cores do meu amor por Vós no coração, onde posso encontrá-La.

Rogai por nós e pelo nosso imenso Brasil, ó Senhora Aparecida! Amém!


Datas e dados históricos extraídos do livro: “A história de Nossa Senhora Conceição Aparecida: A imagem, o Santuário e as Romarias”, do historiador Júlio João Brustoloni, C.Ss.R.