Destaques, Formação, Liturgia › 09/01/2017

O Mistério de Cristo no Tempo Comum

O que é o chamado Tempo Comum?

São aquelas trinta e três ou trinta e quatro semanas, durante o curso do ano, que não celebramos aspectos particulares do mistério de Cristo. Nestes, veneramos o mistério na sua globalidade especialmente aos domingos. Assim chamamos este tempo também de “Per Annum”.

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É Tempo importantíssimo, já nos fala J. Lopez Martin, onde sem ele, a celebração do mistério de Cristo e sua progressiva assimilação pelos cristãos se tornaria reduzida a episódios isolados, vagos, ao invés de inculcar a verdadeira mentalidade evangélica nos fiéis e suas comunidades. Só assim, podemos compreender que o Per Annum é um tempo indispensável, que desenvolve o mistério pascal de modo progressivo e profundo. Logo, dar atenção unicamente aos tempos fortes significa esquecer que o ano litúrgico consiste na celebração de todo o mistério de Cristo e da obra salvadora.

O tempo comum começa na segunda-feira que segue o domingo após o dia 06 de janeiro e se estende até a terça feira antes da quaresma; retoma na segunda-feira depois de Pentecostes e termina antes das Vésperas do I domingo do Advento. E sendo a liturgia, culto santificante, contém rica instrução ao povo de Deus, para o qual é importantíssima a leitura da Sagrada Escritura. Por isso, o Concílio Vaticano II (cf. SC 24, 33, 35) estabeleceu que houvesse uma mais abundante e mais adequada leitura da Bíblia neste tempo.

A leitura semicontínua dos evangelhos sinóticos permite, através da homilia, uma profunda educação à fé, fundada na teologia das atividades históricas de Jesus. Portanto, é preciso ficar muito atento a esse aspecto, para ajudar os fiéis a perceberem, de domingo a domingo, a continuidade da narrativa evangélica e despertar a mensagem de todos os evangelistas ao apresentarem o mistério de Cristo. Esta é a catequese fundamental e essencial.

Algumas festas do Senhor não possuem data fixa. E por sua natureza, e pelo motivo que determinou a sua origem, não estão ligadas aos tempos “Fortes” do ano litúrgico; por isso, são celebradas no chamado tempo comum ou ‘Per Annum’.  São estas: Santíssima Trindade (domingo seguinte a Pentecostes); Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo (2º domingo depois de Pentecostes ou Quinta feira depois da festa da Santíssima Trindade); Solenidade do Coração de Jesus (Sexta-feira depois do 2º domingo de pentecostes); Transfiguração do Senhor (06 de Agosto); Solenidade do Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo (último domingo do tempo comum).

Neste espaço de tempo, temos as chamadas quatro têmporas e as rogações. Sua origem ainda não está completamente esclarecida pelos estudiosos. É certo que se trata de uma instituição da Igreja romana, desconhecida no Oriente e acolhida nas regiões ocidentais com a difusão da liturgia romana. A notícia mais antiga de um quadruplo jejum anual poderia ser encontrada num escrito de Pôncio Máximo, do século IV, onde tal jejum é recomendado, apelando para o profeta Zacarias 8, 19.

A reforma do ano litúrgico realizada segundo as disposições do Concílio Vaticano II manteve as Têmporas, remetendo datas e forma de celebrações às conferencias episcopais para que possam ser adaptadas às diferentes situações locais e às necessidades dos fiéis.

Nas Rogações e Quatro Têmporas do ano, a Igreja costuma rogar ao Senhor pelas varias necessidades humanas, principalmente pelos frutos da terra e pelo trabalho dos homens, e render-lhe graças publicamente. Logo, deve-se escolher para cada dia nestas celebrações entre as Missas para as diversas necessidades a que mais se adaptar ao objetivo a ser atingido.

No Per Annum, também contemplamos o Culto a Nossa Senhora e os Santos. Diz-se: “Todos estavam de pé diante do trono e diante do Cordeiro. Vestiam vestes brancas e traziam palmas na mão. Em alta voz, a multidão proclamava: a salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro.” (Ap 7, 9-10)

“Na celebração anual dos mistérios de Cristo, a santa Igreja venera com especial amor a bem-aventurada Mãe de Deus, Maria, que por um vínculo indissolúvel está unida à obra salvífica do seu Filho; nela admira e exalta o mais excelente fruto da redenção e a contempla com alegria com uma puríssima imagem daquilo que ela mesma anseia e espera ser” (SC 103). A ênfase é colocada na centralidade e supremacia do mistério de Cristo, do qual recebem luz e adquirem significado as festas de Nossa Senhora e as festas dos santos.

A guisa de conclusão pode-se dizer que: “O ano litúrgico, em seu valor essencial, é o ano de Cristo, ou melhor, é o próprio Cristo que vive na sua Igreja e intercede continuamente por nós junto ao Pai (Hb 7, 25). Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e sempre (Hb 13, 8)”. Logo, o “Tempo Comum” tem papel de grande importância na ação pastoral da Igreja para a mais autentica condução dos fiéis ao encontro sacramental com Cristo e seus mistérios, que gravitam em torno do mistério pascal. Isso implica na constante avaliação entre evento – palavra anunciada – sacramento que o atua – fé que o vive. Tornando a liturgia e o espaço e ações litúrgicas em seus tempos celebrativo lugares teológicos privilegiados da comunidade de Cristo, num caminho de aprofundamento da fé – conversão.

Vivamos este tempo com grande amor e criatividade em nossas comunidades para que o Cristo Ressuscitado resplandeça sempre e cada vez mais em nossas vidas e possamos dar continuidade àquela mesma missão que Ele nos enviou: “façam com que todos os povos se tornem meus discípulos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espirito Santo, e ensinando-os a observar tudo que ordenei a vocês. Eis que eu estou com vocês todos os dias, até o fim do mundo.” (Mt 28, 19 -20)

Pe. Gentil Lopes de Campos Júnior

Pároco de Santa Bárbara de Guaranésia.