Destaques, Formação, Querigma › 28/03/2017

O sentido da vida para os que creem em Cristo

Por padre José Hamilton de Castro, vice-reitor do Seminário Diocesano Santo Antônio

Como pessoas humanas nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus. E dele recebemos a missão de guardar e proteger a obra da criação. Nesta missão percebemos o sentido da vida humana. Ao longo da história, os pensadores, desde os pré-socráticos até as contemporâneas reflexões da pós-modernidade, debruçaram sobre esta questão. A sociedade humana, desde a época moderna até o momento atual, está marcada pela busca constante do prazer e do poder através da aquisição material. A busca do sentido da vida humana está em produzir e consumir e assim, encontrar a sua felicidade nas realidades exteriores.

Um grande número de pessoas adia sua felicidade em busca da aquisição de coisas, dizendo que só será feliz quando conseguir isto ou aquilo. Enquanto se busca no exterior a felicidade e realização, a pessoa humana vai se tornando, também, coisa e vai aos poucos perdendo o sentido profundo de sua vida.

Para vários pensadores, o sentido da vida está nela mesma, na realidade concreta em que a pessoa está vivendo, independente se crê em Deus ou não ou se aceita um sentido último para a sua vida. O que se pleiteia é que sem dar um sentido à própria vida, a vida se torna insuportável.

Para nós que cremos em Cristo Jesus, ele nos oferece sentido para a vida no presente e no futuro. Para Jesus Cristo somos seres abertos para o infinito e por esta razão, e nos convida a participar da sua missão. Jesus nos contagia e nos envolve com a mística do Reino de Deus. Para ele, o reino deve ser a motivação que impulsiona a nossa vida, por isso, ele nos exorta a conversão do coração. “Convertam, porque está próximo o Reino dos céus!” (Mt 4,17).

Falando deste Reino dos céus, Jesus nos motiva a pensar que há outro reino que certamente não é de Deus. E pregando o Reino celeste Jesus nos mostra como ele se constitui. Qual é sua lei? Em que se fundamenta? Para responder essas questões Jesus então nos propõe o sermão da montanha como a constituição máxima do Reino (cf. Mt 5, 1-12). Nela percebemos que através das bem-aventuranças, Jesus nos convida a felicidade plena, que se encontra no seu seguimento dentro da realidade histórica em que se vive. E contrariando a lógica do mundo, a felicidade verdadeira está nas situações que normalmente julgamos ser contrárias à ela. Com a mística do Reino dos céus, Jesus ensina a espiritualidade do serviço gratuito e desinteressado como caminho de realização da proposta deste Reino. Com isto, Jesus recupera o sentido da vida humana, que consiste na realização moral do caminho do bem, da busca da santidade que se traduz no compromisso com o reino de Deus que se realiza parcialmente na história que vivemos alicerçados na esperança de plenitude eterna.

Esta vida plena, eterna e feliz que esperamos de forma ativa, deve ser uma utopia que nos leva ao engajamento na vida comunitária que é o lugar onde o Reino de Deus acontece. A união com Cristo resgata nosso desejo de transcendência, de superar a nós próprios, pois nele formamos uma só coisa, nele se realiza a nossa união com a Trindade Santa e união entre nós. Esta experiência pessoal de comunhão com Deus é o fundamento da vida comunitária e é nela que vamos expressar o que cremos e como cremos. Assim, a comunidade nos propicia e impulsiona ao testemunho da nossa fé que torna a vida prenhe de sentido.

Jesus vai exortar a seus discípulos que a fé deve ser praticada: “Nem todo aquele que diz Senhor, Senhor, entra no reino dos céus mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus.” Mt 7,21.

É na comunidade que vamos poder configurar a nossa vida a Jesus Cristo que viveu uma vida voltada para o Pai e para os irmãos. Jesus, motivado pelo Reino de Deus, buscava o Pai em sua vida de oração deixando-se envolver pelo relacionamento filial, obtendo discernimento para a sua ação. Assim, Jesus também ensinou-nos a oração do Pai-nosso como um diálogo constante na busca do Reino de Deus.

Buscar o Reino de Deus, deixar-se ser envolvido por ele, engajar-se na edificação deste Reino, visualizá-lo como realidade divina-humana, que deve realizar-se na história humana dos homens, é a tarefa, missão e o sentido último, para nós seguidores de Jesus.

Gastar a vida, doar-se, para que o reinado de Deus possa acontecer para si e para os irmãos. Sem este olhar para frente, onde se deseja chegar, nós limitamos a nossa vida e ficamos presos só ao momento presente e vamos ficar girando em torno de nós mesmos. Ter uma causa a se dedicar, um objetivo a realizar, isto nos desinstala e nos faz sonhar, esperar… e deslocamos nosso olhar de nós mesmos para fora, para os outros, para o horizonte… Aqui semelhante a uma flor em botão, a vida se abre, se expande! A alegria, a solidariedade e outros sentimentos nobres nascem no coração. O seguimento de Jesus nos faz missionários seus no meio do mundo. O documento de Aparecida nos exorta a missionariedade e o Papa Francisco sempre está nos exortando a uma Igreja em missão.

O referencial objetivo para nós que cremos é sempre Cristo Jesus que nos contagia com a sua proposta de vida plena que se inicia no aqui e agora e aponta para o infinito. Assim sendo, a Fé Cristã oferece as balizas mestras para uma vida vivida em pleno sentido, gasta por amor ao serviço dos irmãos e do mundo ao nosso redor. Os santos e santas da Igreja que conhecemos são para nós testemunhas deste sentido de vida plena que Jesus nos propõe, que é viver uma vida movida pelo amor a Deus e aos irmãos.

Que a crise do mundo moderno investindo as energias humanas apenas na aquisição material, como se fosse o sentido último da vida possa nos levar, sem achar que somos os melhores, a descobrir em Cristo o sentido último de nossa vida e, conformando nosso viver á vida de Cristo, possamos deixar nossa contribuição na história como resgate da humanidade chamada a reerguer-se de uma vida sem sentido à uma vida que valha realmente a pena ser vivida. Creia, viva e ame, assim, darás um sentido à própria vida e deixará testemunhos de amor que outros desfrutarão e, ao mesmo tempo, motivaremos os outros com o exemplo da própria vida.