Liturgia › 23/06/2016

O silêncio na liturgia: a voz de Deus que ecoa no coração humano

Por Padre Júlio César Agripino,  vigário paroquial em Cássia 

Vive-se a época do barulho. Em casa, no trabalho, no campo ou nas cidades, em todos os lugares torna-se cada dia mais difícil o silenciar-se. O barulho da música, do grito das mais diversas ideologias, do consumismo, do imediatismo, do pragmatismo e de tantos outros “ismos” ofuscam a bela e edificante melodia que emana do silêncio. Talvez, esse seja temido devido a sua capacidade de conduzir o homem para dentro de si mesmo, sem poder fugir, deparando-se com realidades e circunstâncias desafiadoras, com as quais não desejaria em hipótese alguma encontrar: os seus limites, os seus erros, a sua fragilidade, os seus pecados. Daí resulta a necessidade das mais variadas formas de barulho que mascaram a excentricidade de cada ser em si.

13-Prayer

É no silêncio mais profundo do coração que Deus encontra espaço para falar ao homem, sua criatura predileta, e, concomitantemente o local mais perfeito para se escutar a voz de Deus. Infelizmente, esse mundanismo tem tomado espaço nas assembleias litúrgicas, configurando-a a uma liturgia excessivamente falante e, muitas vezes, barulhenta demais.

O Concílio Vaticano II propôs uma verdadeira reforma no espírito da Liturgia ao sugerir a necessidade da participação ativa dos fiéis por meio do incentivo aos cânticos, salmodias, aclamações etc. Diz o documento: “para se promover uma participação ativa, trate-se de incentivar as aclamações do povo, as respostas, as salmodias, as antífonas e os cânticos, bem como as ações e os gestos e o porte do corpo. A seu tempo, seja também guardado o sagrado silêncio” (Sacrossanctum Concílio, 30). Como se viu, o ensejo ao silêncio em algumas partes da liturgia não foi abolido, mas, pelo contrário, mantido e mencionado no documento no mesmo tópico onde foram descritas algumas formas de participação ativa do fiel. Isso leva-nos a compreender que o silêncio também se enquadra como uma maneira de se participar ativamente da liturgia. O silêncio entrou nas normas litúrgicas como parte integrante das celebrações.

Cada vez mais, tem se tornado difícil perceber a força comunicadora do silêncio em nossas assembleias litúrgicas. Acredita-se equivocadamente que uma verdadeira participação ativa não se é necessária sem barulhos, manifestações corporais exageradas e sem sentido. A Instrução Geral do Missal Romano reafirma o silêncio como parte integrante das celebrações quase que com as mesmas palavras da Sacrossanctum Concílium: “Oportunamente, como parte da celebração, deve-se observar o silêncio sagrado. A sua natureza depende do momento em que ocorre em cada celebração. Assim, no ato penitencial e após o convite à oração, cada fiel se recolhe; após uma leitura ou a homilia, meditam brevemente o que ouviram; após a comunhão, enfim, louvam e rezam a Deus no íntimo do coração. Convém que já antes da própria celebração se conserve o silêncio na Igreja, na sacristia, na secretaria e mesmo nos lugares mais próximos, para que todos se disponham devota e devidamente para realizarem os sagrados mistérios.” (Instrução Geral do Missal Romano, 45)

O Silêncio na liturgia não deve ser visto como um simples momento de mutismo ou como um vazio dentro da celebração, ou mesmo como uma privação do fiel de sua participação ativa, contradizendo o documento conciliar. Pelo contrário, o silêncio deve ser compreendido como essencial e indispensável em algumas partes da celebração como fonte de profunda oração e absorção da Palavra proclamada; como uma maneira eficaz de introspecção e interiorização para ouvir a voz de Deus que ecoa dentro de cada ser humano constituído a sua imagem e semelhança; e, concomitantemente, como uma fonte eficaz de autoconhecimento. Sem a predisposição ao silêncio não há profundidade no que se fala, no que se canta, no que ser reza, no que se escuta. A oração proporcionada pelo silêncio traduz-se em uma bela e eficaz participação ativa do fiel dentro da liturgia.

A melhor maneira de se preparar bem para a Santa Eucaristia é respeitando o silêncio dentro do espaço sagrado, inclusive na sacristia e arredores. Isso vale para aquele que preside a celebração, para os seus assistentes, bem como para toda a assembleia congregada ao redor do altar.

A percepção do mistério, especialmente o mistério da fé, pressupõe do silêncio exterior e interior. De nada adiantaria a ausência de ruídos exteriores, se no mais íntimo de cada pessoa não existisse outra coisa a não ser o barulho das preocupações, das angústias e do caos. Portanto, ao se adentrar em uma igreja, especialmente para a Celebração Eucarística, os corações devem se manter sempre elevados para o alto, conforme convida uma das alocuções introdutórias da prece eucarística. É o momento de desligar-se do mundo que segue o seu ciclo lá do lado de fora da Igreja e, como Maria, irmã de Marta, optar pela melhor parte: ouvir a voz do Senhor. Silêncio exterior predispõe de silêncio interior.

Em suma, o ser humano necessita de momentos de calma, tranquilidade e de silêncio na estafante vida hodierna. Sobretudo nas celebrações litúrgicas, ele precisa encontrar um ambiente favorável que o leve ao encontro do mistério que se celebra. Deus não cessa de comunicar o seu amor. É no silêncio do coração que ecoa a Sua voz.