Destaques, Formação, Liturgia › 21/12/2016

O Tempo do Natal e os “verbos” de Deus

No Tempo do Natal nosso coração se enche de alegria porque em meio a escuridão de nossas vidas, Deus se fez presente e sua presença é sempre iluminadora e de muita alegria. “Fizeste crescer a alegria e aumentaste a felicidade; todos se regozijam em tua presença” (Is 9, 2).

A ação de Deus na história da salvação do ser humano pode ser traduzida em verbos. Não tenho pretensões de dar uma aula de gramática portuguesa, mas sim, utilizar deste instrumento de nossa linguagem, para compreendermos melhor esta ação salvífica de Deus em nossa história.

frente

Deus cria! É sua a iniciativa de criar o ser humano. Plasma com suas mãos o ser humano, e nele deposita o hálito de vida. É a sua imagem e semelhança que Ele nos criou. Trazemos em nós a marca de Deus, marca de seu amor e de sua ação criadora. Deus se encanta ao admirar sua criação, pois como vemos nas Escrituras, “Deus viu tudo que tinha feito: e era muito bom”. (Gn 1,31).

Deus procura! Não obstante seu amor, é Deus quem procura, que toma iniciativa e vai atrás do homem após a queda no pecado: “Adão, onde estás?” (Gn 3,9). Sentimo-nos interpelados por esta pergunta de Deus. Ele ainda pergunta a nós: Pedro, Maria, João, onde vocês estão?  A soberba, e o desejo de “sermos como deuses”, que abunda em nossos corações, não nos permite o contato mais íntimo com Deus. O pecado rompe nossa amizade com Deus.

Deus regenera! Nas águas do Dilúvio, Deus fez renascer um novo povo. Foi dado aos seres humanos a oportunidade de viverem em paz e harmonia com o seu Criador. As águas que tomaram a terra, fazendo-a retornar ao caos que antecedia a criação, sepultou todos os vícios e males que obstruíam a relação de Deus e seu povo.

Deus ouve e vê! Assim se fez ao ver os sofrimentos de seu povo. “Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi seu grito por causa dos seus opressores” (Êx 3,7). O Senhor está atento aos sofrimentos e angústias de seu povo. Se esteve atento aos sofrimentos de nossos pais na fé, também não estaria atento aos sofrimentos de hoje? Eu vos digo que sim: porque a glória, a felicidade de Deus é o homem vivo (Santo Irineu. Séc. II). Pleno! Realizado!

Deus conduz! Foi Ele, que por meio da ação de notáveis homens, como Abraão, Moisés, e os Profetas, por exemplo, que conduziu a humanidade. Os fizeram líderes dos povos para que estes, seguindo seus ensinamentos, se tornassem o seu povo. Deus falou pela boca de seus santos profetas, exortando ao povo para trilharem no caminho da santidade.

Deus encarna! Esta é a ação de Deus, que de modo mais excelente, nos faz estar unidos para celebrar. Como diz Santo Afonso: “Deus desce do alto das estrelas”, e na forma de um menino, na noite fria de Belém, para encontrar-se com os homens e aquecer seus corações, enrijecidos por causa da saudade de Deus.

“Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias nos falou pelo Filho” (Hb 1,1‑2). Toda a palavra, tudo aquilo que foi dito, toda espera de Israel, se tornou concreta no choro de um recém-nascido. Mal sabia a redondeza, que naquela gruta, cercada pelos animais e pastores, se encontrava um bebê, “nasceu para nós um menino, foi-nos dado um Filho”. Um filho homem é a esperança de uma casa, sobretudo da descendência de uma família. O Messias, um Filho que foi-nos dado, é a esperança de todo Israel, é Ele a descendência de Deus.

Deus anuncia! Foi para cumprir a vontade do Pai que o Filho se fez homem e habitou no meio de nós. Jesus anuncia o Reino de Deus e o seu fim último: “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham plenamente” (Jo 10,10). Homens e mulheres, pecadores e santos, cidades e campos, todos estão inclusos neste projeto de Deus. A vida em plenitude dever ser para todos, nenhum preceito, nenhuma norma deve existir para ocasionar a morte do homem, e sim a sua vida.

Na pessoa de Jesus, reatamos a amizade com Deus. Deus experimenta a carne humana para que nós experimentemos mais ainda o seu amor por cada um de nós. Sua encarnação acontece para recordar a cada homem e mulher, quem realmente somos e a quem realmente pertencemos. “Ele mesmo nos fez, e somos seus, nós somos, Senhor, seu povo e seu rebanho”(Sl 99, 3).

Deus morre! Esta morte não se assemelha aquela afirmada pelos racionalistas, ou pelos desejosos em construir uma sociedade sem Deus. Jesus, o Cordeiro, se oferece como expiação por nossos pecados. Pela morte de um justo, toda humanidade foi justificada. A morte de Deus seria para nós motivo de tristeza? Seria o fracasso de todo o projeto de Jesus? Não, a morte de Jesus foi a consumação do sonho de Deus para a humanidade, reconciliar o mundo consigo. “Ele traz aos ombros a marca da realeza” (Is 9, 5). Na Cruz, Jesus, toma sobre si os pecados da humanidade.

Deus ressuscita! Ele é o Senhor da vida e da morte. Experimentando o mais profundo da realidade humana, que é a morte, Jesus ressurge vitorioso. Com a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, foi reacendido em nossos corações a chama da fé e da esperança eterna. Foi no silêncio da noite que Deus veio ao mundo, no mesmo silêncio da noite, Deus eleva ao céu nossa natureza. Podemos, também no natal dizer: “Ó noite de alegria verdadeira que uniu de novo o céu e a terra inteira”.

Estes verbos de ação aqui refletidos, apresentam-nos a ação amorosa de Deus na história. É sempre um verbo de ação, de movimento, no qual Deus sempre principia. Celebrando o Natal de nosso Senhor, questiono: Qual seria nossa postura de crentes diante das ações de Deus? Arrisco dizer que nossa postura deriva de um verbo: testemunhar! Mais do que nunca, no tempo do natal somos convidados a testemunhar as maravilhas de Deus. Traduzir em gestos e palavras, que nosso Deus é simples, se fez pobre por causa de nós. Anunciar que o Messias nasceu, que Ele é nossa esperança, e somente Nele encontramos alento e força para a vida. Sigamos o exemplo dos pastores, gente humilde, que sempre atentos cuidavam do rebanho a noite, “eles correram a procura do Menino envolvido em faixas e deitado na manjedoura”(Lc 215-16). E, ao experimentarem a alegria de ter encontrado Jesus, deram testemunho daquilo que o Senhor lhes permitiu experimentar.

É Natal, louvemos à Deus por tudo que Ele fez em nosso favor.  Rezemos ao Senhor para que nos dê a graça de, ao contemplar o presépio, nutrir em nós a simplicidade dos pastores, para tomarmos da mesma alegria com a qual eles voltam para casa (Lc 2,20).

Guilherme Ribeiro,

Seminarista – Teologia