Destaques, Formação, Liturgia › 03/06/2017

Pentecostes: começaram a falar outras línguas

Por padre Renato César Gonçalves.

Para se compreender melhor a solenidade de Pentecostes dos cristãos é importante fazer menção à festa judaica de Pentecostes, que não possui o mesmo sentido do envio do Espírito Santo, mas é uma festa ligada à colheita. Esta festa tem sua raiz justamente ligada à colheita de grãos, trigo e cevada que acontecia cinquenta dias após a páscoa e tinha duração de sete semanas, quando se encerrava a colheita do trigo. Portanto, é uma festa ligada à vida, aos frutos, aos dons que, de certa maneira, a Igreja vislumbra já em seus primórdios, quando vê a comunidade reunida como messe pronta para a colheita.

A festa cristã de Pentecostes, como o envio do Espírito Santo, remonta ao episódio da construção de Babel, a torre da confusão de Gn 11,1-9. A busca da fama e do poder fez com que se buscasse chegar aos céus com uma torre, porém, a partir de então, os homens não se entenderam mais. Justamente porque quando se busca as alturas (ou ser o maior) não se reconhece o outro e a única linguagem que se entende se chama “eu”. Daí que em Babel não há a concretização do empreendimento, mas dispersão, porque a língua do “eu” não é compreendida pelo comunitário, e assim não se tem como construir nada.

No cenáculo, em Pentecostes, o conjunto de pessoas que falavam a língua do “eu” se reuniu para fazer memória de Jesus Cristo. De repente línguas de fogo se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e, como a experiência dos discípulos de Emaús, o coração ardeu e eles perceberam que Jesus continuava vivo, mas agora queria ensinar uma língua antiga, falada nos primórdios da humanidade. E começaram a falar uma língua diferente, ainda desconhecida, chamada “nós”. Todos acharam estranho, porque todos compreendiam. Afinal, a língua do “nós” é realmente universal. Era a língua falada por Jesus. Estando na Samaria, Jesus não compreendia como uma lei proibia ele de se aproximar de uma mulher por ser mulher e por ser de outra terra. Ao estar entre as pessoas, Jesus não compreendia porque o chamavam de comilão e beberrão só porque ele falava com pecadores e ia à casa deles. Jesus falava a língua do “nós”.

A Igreja relembra este fato quando, no dia da colheita judaica, a comunidade colhe os dons de Jesus e a partir de então é chamada a levar estes mesmos dons a todos. Cristo não é para alguns, mas é para todos. A celebração de Pentecostes recorda o fogo abrasador daquele dia, mas traz o mesmo fogo abrasador para nossas comunidades para nos incomodar porque esquecemos a língua do “nós” e insistimos a ficar ruminando a língua do “eu” que só causou dispersão. Por isso é importante recordar que o Espírito Santo é a força de Deus, que procede do Pai e do Filho e que nos recorda como é Deus e como nós devemos ser. É a celebração que nos rememora o início da atividade evangelizadora da Igreja.

Neste dia o círio pascal, que iluminou as celebrações durante estes cinquenta dias é retirado para recordar que o fogo que ilumina pousou sobre nossas cabeças e adentrou em nossos corações. A páscoa não acabou! Ela continua. Porém, a Igreja continuará o tempo comum, ou seja, trará para o cotidiano a recordação pascal constante da língua universal que Jesus nos ensinou. O mundo só será melhor se todos falarmos o “nós”.

Que o Espírito do Ressuscitado impulsione a fé em nossos corações.