Destaques, Formação, Liturgia › 28/02/2017

Quaresma, tempo de preparação para a estupenda prova de amor de Deus aos homens

Por Padre Júlio César Agripino, administrador paroquial em Cássia

Cruz e espinhos“Reconciliai-vos com Deus”, “volta meu povo ao seu Senhor” são versos do cancionário litúrgico cristão que nos introduz no mistério do tempo quaresmal. É o tempo favorável para um apurado exame de consciência, arrependimento dos pecados e de mudança de vida, correspondendo à graça de Deus que concede esse dom a todos os homens. É o tempo favorável de aprofundamento da vocação de discípulo/missionário de Jesus concernente a todos os batizados. Não simplesmente como meros expectadores, acompanhando do lado de fora a via crucis do Senhor, mas como participantes, compartilhando a própria vida do Salvador: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mc 8,34).

Conforme o Concílio Vaticano II: “a dupla índole do tempo quaresmal, que, principalmente pela lembrança ou preparação do batismo e pela penitência, fazendo os fiéis ouvirem com mais freqüência a Palavra de Deus e entregarem-se à oração, os dispõe à celebração do mistério pascal” (SC 109). Quaresma é, portanto, o tempo favorável e propício de preparação para a Páscoa do Senhor, por meio da oração, do jejum e da penitência e, sobretudo, por meio da escuta atenta da Palavra Deus. De fato, a caminhada quaresmal só terá sentido e será corretamente entendida à luz da Páscoa, seu ápice. No mistério do Cristo morto e ressuscitado a Igreja celebra o novo nascimento dos que serão batizados e renova a Aliança batismal daqueles que já o foram.

Na Páscoa, Cristo entrega-se à sua esposa, a Igreja, “para apresentar a si mesmo uma Igreja gloriosa, sem mancha nem ruga ou qualquer outro defeito, mas santa e imaculada” (cf. Ef, 25-27). Dessa forma, a Igreja é chamada a deixar configurar-se ao mistério de Cristo, seu Esposo, que se entrega a ela até a morte, vivendo a dinâmica do amor oblativo em sua mais sublime forma.

Quaresma pressupõe um caminho de conversão, não apenas fruto da capacidade humana de auto-análise ou autocrítica e de um sincero e leal exame de consciência, mas como dom de Deus que vem até os homens por meio de Cristo. Todo o empenho ascético que brota no coração do crente proveniente desse tempo propício de conversão não consiste apenas em um esforço da vontade humana de conquistar a santidade, mas, antes de tudo, é uma resposta com a qual o cristão, sustentado pelo auxílio divino, mantém e aperfeiçoa com a vida a santidade que recebeu no batismo (cf. LG40). Não estamos diante de uma simples exortação a conciliação fraterna, necessária, é claro, ou de uma mudança de vida. Trata-se de algo que transcende a essas realidades: o reconhecimento e a acolhida da estupenda iniciativa de Deus que, por amor, reconcilia conseguem o mundo.

O termo Quaresma deriva do número “quarenta” que é bíblico e cheio de simbolismos: os quarenta dias do Dilúvio, os quarenta dias de Moisés no Monte Sinai, os quarenta anos de Israel no deserto, os quarenta dias do caminho de Elias até o Sinai e, sobretudo, os quarenta dias do Senhor Jesus no deserto, preparando sua vida pública, quando, após esses dias de jejum, é tentado pelo demônio. O tempo quaresmal inicia-se com a quarta-feira de cinzas, estendendo-se até a quinta-feira santa, exclusive.

Durante esse tempo, a Igreja se reveste do roxo, cor que simboliza a penitência, o recolhimento e, concomitantemente, uma espera confiante; a alegria, o colorido e a beleza das flores dão lugar a um profundo despojamento e sobriedade; despede-se dos seus “aleluias” e “glórias” que voltarão a ser entoados com toda propriedade e força no Sábado Santo, proclamando a vitória da vida sobre a morte. Faz-se essencial, para bem se viver cada tempo do calendário litúrgico, dar a ele a sua tonalidade própria. Portanto, deve-se ter o cuidado redobrado na escolha do repertório litúrgico, dos simbolismos e gestos. O silêncio orante deve falar ao coração dos fiéis e os entronizar nos mistérios sacrossantos deste tempo.

 A Igreja do Brasil, desde 1964, de forma mais sistemática e organizada nos propõe um tema e um lema para meditarmos durante este período de quaresma, o que chamamos de Campanha da Fraternidade. Para este ano a Igreja propõe o tema: “Fraternidade: Biomas brasileiros e defesa da vida” e o lema “Cultivar e guardar a criação” (cf. Gn 2,15). A comunidade dos discípulos/missionários de Jesus é impelida a contemplar a beleza da criação, despertando-se para a imprescindível necessidade do seu cuidado e preservação. A Igreja é peregrina, ou seja, caminha neste mundo e, como tal, precisa conscientizar-se da problemática atual na qual está inserida e dar a sua contribuição.

Quaresma é o tempo de preparação para a grande festa do amor que é a Páscoa. É um tempo propício para o crescimento no conhecimento próprio lutando contra os defeitos mais arraigados que existem em nós e que, muitos deles, nos afastam de Deus e do próximo, recorrendo humildemente ao Sacramento da Reconciliação. Aliás, essa é uma prática indispensável na Quaresma: a celebração penitencial ou da reconciliação. Faz-se necessário desfazer-se dos erros e falsas pretensões a fim de se alcançar as metas e os objetivos propostos por esse tempo favorável de mudança de vida. Não é um caminho fácil, porém, a Graça de Deus está sempre a favor daqueles que a ela acorrem. Quando o homem faz a sua parte, que é lutar sempre confiante na ajuda de Deus, Ele não deixará de conceder as graças necessárias para que aconteça uma verdadeira conversão em seu coração. E assim chegar-se-á renovado para a Páscoa da Ressurreição, reassumindo e vivenciando a sua vida batismal. Que se aniquile o homem velho e renasça o novo homem em Cristo.