Destaques › 31/05/2017

“Semeando Deus, colhendo santidade”: Dom Frei Inácio João Dal Monte

Por Guilherme Ribeiro, seminarista do quarto ano de Teologia da Diocese de Guaxupé, reside no Seminário Diocesano Santo Antônio em Pouso Alegre.

A vida de santidade não é expressão de uma vida pautada somente naquilo que é extraordinário. Até, porque, Deus nos chama a sermos santos em nossa quotidianeidade, nos chama a santidade no hodierno de nossa existência.

Muitos homens e mulheres vivem suas vidas pautadas no amor a Deus e aos irmãos, santificam suas vidas porque ao longo dela foram sinais de Deus na vida de outras tantas pessoas. Muitas destas personagens não estão inscritas no Livro dos Santos e muito menos estão em algum altar, são os chamados “santos sem aureola”, ou seja, que não foram canonizados pela Igreja.

A Diocese de Guaxupé foi agraciada por Deus, por nos enviar zelosos pastores que governaram, ensinaram e santificaram nossa gente nestes 100 anos de história. Não obstante as dificuldades dos tempos, tivemos bispos que de fato honraram a nomenclatura de Sucessor dos Apóstolos, encasáveis na pregação da Palavra de Deus, vigorosos na condução da Igreja de Deus que peregrina neste mundo.

Dom Frei Inácio João Dal Monte governou nossa Diocese nos anos de 1952 a 1963. Foi um santo bispo e um bispo santo para a Igreja de Deus que está em Guaxupé. Descendente de italianos nasceu em Ribeirão Preto – SP, após a morte de seu pai, retorna com sua mãe para a Itália, lá recebeu os estudos iniciais e ouvindo os apelos do Senhor ingressou na Ordem dos Frades Menores Capuchinhos. Estudou, emitiu os votos temporários e perpétuos, de acordo com as regras da Ordem Franciscana.

Foi ordenado sacerdote no dia 05 de abril de 1924, com 27 anos de idade. Por providência de Deus, Frei Inácio integrava um grupo de frades que foram enviados em missão para o Brasil, explicitamente para o estado do Paraná. Desenvolveu inúmeros trabalhos como frade, era notório seu zelo pelas almas. Em meio às comemorações de seu Jubileu de Prata Sacerdotal, o Papa Pio XII o nomeia bispo coadjutor da Diocese de Joinville-SC, lá permaneceu por 03 anos, marcando profundamente o povo Catarinense. Foi Sagrado bispo no dia 26 de maio de 1949 assumindo como lema episcopal “Exiit qui seminat” (O semeador saiu a semear).

Com a nomeação de Dom Hugo Bressane como arcebispo-coadjutor de Belo Horizonte, Pio XII nomeia Dom Inácio para a Diocese de Guaxupé. Sua posse foi dia 07 de setembro de 1952 na Sala do Trono do Palácio Episcopal, visto que a Catedral estava em obras.

Relatos arquivados e vivos afirmam o tamanho da santidade deste homem, que de forma simples como um frade, guiou a Diocese segundo os ditames do tempo e da história. Trazia consigo o desejo da santidade para si e para seus filhos espirituais. A todos chamava de santo, certamente para que não se esquecessem dos dizeres do Apóstolo Pedro: “Sede santos como eu sou santo” (1Pd 1,16).

Pastor preocupado com o bem espiritual dos fieis, bem como a formação de seus sacerdotes. Em 1954 iniciou as obras de um novo prédio onde funcionaria o Seminário Diocesano São José. Com muito esforço, Dom Inácio percorreu a diocese para angariar fundos para a construção. Auxiliaram-no os padres, Mons. João Milani e Côn. Walter, promotores vocacionais.

Neste entremeio motivou a continuação das obras da Catedral, a qual teve o enorme prazer de entregar aos seus diocesanos. Maior alegria para o seu coração de pai e pastor era ver edificada a Igreja de Deus em cada homem e mulher. Não media esforços para atender quem o procurava, afirmam que passara horas no confessionário ouvindo e curando os corações feridos pelo pecado. Acariciava as crianças, acenava aos mais velhos, sempre sorrindo fazia chegar a todos o seu amor e atenção. Coisas simples da vida de bispo, mas que o fez se tornar mais humano e mais próximo de Deus.

Para o clero diocesano de Guaxupé, Dom Inácio ordenou 16 sacerdotes, dos quais dois ainda estão vivos e dão testemunho de sua paternidade bondosa e santidade de vida. Passados 54 anos de sua morte, continua ainda vivo na história e no coração de muitas pessoas. É considerado por muitos um santo, isto certamente porque foi para todos quanto o conheceram, sinal do amor e da presença de Deus.

Dom Inácio Faleceu aos 66 anos de idade no dia 29 de maio de 1963 em Guaxupé, acometido de trombose cerebral. Suas exéquias foram oficiadas por Dom José D’Angelo Neto, Arcebispo Metropolitano de Pouso Alegre. Seu corpo descansa na Cripta da Catedral desde o dia 31 de maio de 1963.

 Por ocasião da morte e sepultamento de Dom Inácio, Côn. Walter Maria Pulcinelli proferiu comovente discurso, o qual trazemos apenas uma parte:

“Espetáculo comovente ver a multidão acercando-se de seu esquife, procurando tocá-lo com terços, colocando sobre seu corpo uma flor ou retirando uma como lembrança, quem sabe, como relíquia! Não menos comovente contemplar o povo, curvando-se a beijar o anel episcopal. E o seu clero, os padres que tanto amou e foi por eles amado, chorando ao dizer adeus ao pai extremoso.

E quando a cobertura da urna funerária nos tirou o ultimo consolo que era ainda a visão de sua face bem amada, nós sentimos toda a realidade de separação e as lagrimas traduziam bem a amargura daquela hora. Baixou, Dom Inácio, à cripta de sua Catedral para ficar para sempre conosco nos subterrâneos da igreja. Parece-nos agora ver a Catedral alicerçada sobre seu coração de pai e pastor, como a nos dizer que, nós, seus filhos e diocesanos, o seu rebanho, estamos todos plantados sobre seu coração de pai.

E ele dorme o sono dos justos! Dos bem aventurados! Espera a trombeta da ressurreição final! Repousa em paz senhor bispo, o seu povo não o esquecerá jamais e sua figura patriarcal estará viva em nossos corações. Dorme em paz Dom Inácio, os seus sacerdotes guardarão para sempre a lembrança de alguém que foi pastor para Deus e para as almas.

Seus padres e seu povo cultivarão a sua memória, bendizendo a sua seráfica passagem pelas plagas do Sudeste mineiro, seguindo as suas pegadas luminosas. Descansa, enfim, batalhador incansável do Reino, Semeador infatigável da Palavra de Deus. Nós ficaremos a velar, na recordação de seu afeto paterno, na tentativa sempre renovada de nos mostrarmos dignos filhos de um tão grande pai”.

Dom Inácio foi primeiro bispo a ser sepultado em nossa Catedral, seu túmulo é constantemente visitado. Fiéis de diversos lugares e sacerdotes rezam diante de seus despojos, pedindo uma graça ou agradecendo seus favores.

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