Destaques › 08/02/2018

Superação da violência é o assunto da CF 2018

Por Renan Beraldo Reis, seminarista- filosofia

Desde 1964, quando foi aprovado pela CNBB o primeiro projeto da Campanha da Fraternidade de alcance nacional intitulado “Campanha da Fraternidade: pontos fundamentais apreciados pelo episcopado em Roma”, a Igreja no Brasil, durante a Quaresma, reúne esforços que visam despertar o espírito comunitário e cristão do povo de Deus, envolvendo os cristãos na busca do bem comum; educar para a vida em fraternidade a partir da justiça e do amor, exigência central do Evangelho, e renovar a consciência da responsabilidade de todos pela ação da Igreja na evangelização e na promoção humana em vista de uma sociedade justa e solidária.

A Quaresma é um tempo forte de sensibilidade, sobriedade e despojamento do supérfluo, de conversão, libertação e transformação da vida em Cristo. A Igreja no Brasil, então, vale-se do período quaresmal para apresentar às comunidades uma realidade que pede atenção, mudança, conversão. Para o ano de 2018 foi proposta questão da violência, relatada por grande número de brasileiros e intensificada nos últimos tempos, quer em cidades pequenas, quer nas grandes metrópoles do país.

O tema da Campanha da Fraternidade 2018 é “Fraternidade e superação da violência”, ensejado pela observação do fato de que a violência no Brasil apresenta números superiores aos de países em estado de guerra. O lema provém do Evangelho de Mateus (23,8), que diz “Vós sois todos irmãos”, contexto em que Jesus confrontava com fariseus e mestres da lei que queriam reforçar uma sociedade hierarquizada em que as pessoas valessem conforme seu status social. Tem o objetivo geral de “construir a fraternidade, promovendo a cultura da paz, da reconciliação e da justiça, à luz da Palavra de Deus, como caminho de superação da violência”.

Por meio do método Ver-Julgar-Agir, adotado pela Campanha, foi possível distinguir múltiplas formas de violência, o que submete o país a uma contradição em sua identidade. Diz-se que o Brasil é um país abençoado, em que se veem a diversidade e a fartura propiciadas pela natureza generosa, uma nação acolhedora, ordeira, pacífica e de alegria e festividade ímpares. Tudo isso não converge com os dados conhecidos, por exemplo, pelo Atlas da Violência de 2016, apresentado no Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que aponta o Brasil como responsável por quase 13% dos assassinatos do planeta.

Viu-se que a violência como um fator cotidiano revela múltiplas faces. A chamada violência direta – homicídios, sequestros, estupros, entre outras – pode ser praticada de forma explícita ou mesmo sutil, mas não menos danosa. Nesse sentido, ganha visibilidade por meio das tecnologias da informação a expressão de agressividade sob a forma de preconceito ou ódio de classe, raça, gênero, política e até mesmo de intolerância religiosa, além dos atos criminosos praticados fisicamente.

Tudo isso é um indicador de falta de equilíbrio nas relações sociais, de modo que a existência pacífica e fraterna tem parecido frágil e suscetível a abalos por razões banais. Mesmo que essas situações sejam objeto mais comum de políticas públicas com vistas ao embate e à punição dos agressores, existem fatores que delineiam um espaço favorável à violência na sociedade, como a ineficiência das ações do poder público, que acabam não tendo êxito na proteção, promoção e defesa de direitos de muitos cidadãos.

Além disso, foi percebida a chamada violência institucional, que se relaciona aos modelos de organização e às práticas sociais que alcançam um nível institucional e sistemático de produção e perpetuação de modos de vida violentos. Crises socioeconômicas, baixa escolaridade, narcotráfico e desigualdades sociais são alguns dos fatores que fomentam essa dinâmica.

É identificada ainda a violência cultural, em razão da qual uma sociedade não reconhece como violentas algumas formas que determinadas pessoas são agredidas. Elaboram-se processos e discursos que parecem legitimar e ou justificar certas atitudes, como se fossem consequências da conduta das vítimas. Destacam-se os crimes por ciúmes, desavenças entre vizinhos, desentendimentos no trânsito. Também nesse sentido emerge a questão das piadas e brincadeiras, que diminuem o valor do ser humano e o despreza.

O texto-base da Campanha da Fraternidade 2018 expõe quais segmentos são maiores vítimas da violência no Brasil contemporâneo. Constatou-se o aumento da violência contra a mulher, bem como o alto número de assassinatos entre homens. Destacam-se também as violências: racial, entre os jovens, doméstica, contra os trabalhadores rurais e povos tradicionais, exploração sexual e tráfico humano. A Igreja quer contemplar esses rostos, propor respostas – uma boa nova – para cada uma dessas situações.

As Sagradas Escrituras lançam luz à questão da violência, à medida que Deus se revela ao homem e vai lhe inspirando ações para superá-la. O decálogo apresenta um convite concreto para superá-la e os profetas denunciam a injustiça, a fim de que todos promovam a justiça. Mesmo o Gênesis, com o fratricídio entre Caim e Abel, apresenta uma resposta teológica para a violência: quando o ser humano não consegue reconhecer no outro um irmão seu, usurpa para si o direito de fazer ao próximo aquilo que deseja; cada vez que alguém comete um ato desrespeitoso para com o próximo, é como se Abel morresse novamente nas mãos de Caim.

Jesus, Verbo Encarnado de Deus, é o ponto central da revelação divina. Quis morar entre a humanidade, assumir suas dores, angústias e aflições, daquela época e de todos os tempos. Sofreu todas as mazelas inerentes à violência e assumiu as dores causadas a todas suas vítimas. Promoveu uma cultura de paz que serviu de exemplo para todos os tempos. Nunca respondeu aos seus opositores com agressividade, tampouco ensinou aos seus discípulos a vingarem-se, mas viverem conforme o Evangelho, numa cultura de reconciliação e de paz. Estandardizou o valor do perdão nas palavras do Sermão da Montanha e da Oração do Pai Nosso. Morreu de modo violento, mas superou as atrocidades que Lhe fizeram.

A Igreja de Jesus é a continuadora dessa sua missão. Ela é chamada a anunciar a reconciliação e a paz. Seu fim é o Reino, que promove esses valores. Em alguns momentos históricos, a Igreja precisou engendrar em si atitudes de conversão, porque é constituída por humanos, que não estão prontos, mas em contínua transformação. Mas dela fazem parte pessoas envolvidas com o anúncio e a propagação da paz de Cristo, que perdoaram e rezaram por seus perseguidores. Figuras como Francisco de Assis, Maximiliano Kolbe, Edith Stein, Paulo VI, João Paulo II foram, pela Igreja de Jesus, arautos de um mundo reconciliado e pacífico.

A Campanha da Fraternidade não é só uma teoria ou uma bela mensagem, mas é um caminho concreto, uma ação prática, que segue os passos de Jesus e de muitos homens e mulheres de boa vontade que construíam a paz e geriam a fraternidade. Ela conclama atitudes de conversão nos campos social, comunitário e social, que englobam desde os pequenos comportamentos, o engajamento em pastorais e em iniciativas da sociedade civil e a implantação de mecanismos para a superação da violência. A mensagem do cartaz da CF 2018 é a de um pacto entre pessoas que representam vários segmentos da sociedade, que se dão as mãos em vista da superação da violência e do estabelecimento de uma cultura de paz, reconciliação e justiça.

Dom Leonardo Ulrich Steiner, Bispo Auxiliar de Brasília e Secretário-geral da CNBB, reitera que a violência “nasce do esquecimento das origens, da vocação do ser humano: o amor. […] Os descaminhos, no entanto, podem ser superados com a volta às origens, com a reconciliação e a misericórdia. Somos chamados à superação da violência, pois somos filhos e filhas de Deus”.