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CONVIVENDO COM O MAL

CONVIVENDO COM O MAL

 

Roberto Camilo Orfão Morais

 

De onde vem o mal? Preocupação que nos acompanha e não nos deixa em paz. A Teologia fala do mysterium iniquitatis,” o mistério do mal”, a filosofia e a psicologia apresentam diferentes perspectivas.

 

O escritor alemão, o beneditino Anselm Grün, em seu livro “Convivendo com o mal: A luta contra o demônio no monaquismo antigo”, realiza pertinente reflexão. Defende a importância de levarmos a sério os fenômenos observados pelos padres do deserto, mesmo que na contemporaneidade esses fenômenos recebem outros nomes, dados pela psicologia.

 

Segundo Anselm Grün, os monges ensinam; “não podemos eliminar o mal do mundo, temos que tirar-lhe a força”, o importante para eles era a experiência no confronto com o próprio mal. Antes de especular sobre sua essência, se concentravam em explicar suas técnicas, embora fossem crentes em sua existência.

 

Citando Evágrio Pôntico, ressalta-se duas técnicas diferentes de influência do mal: “a luta por meio das coisas e acontecimentos do mundo exterior, e a luta por meio dos pensamentos e imagens, fantasias”, essa última considerada tortuosa, pois para os antigos monges, o verdadeiro combate trava-se na parte emocional da alma.

 

Com a afirmação de Evágrio Pôntico, “todo excesso provém dos demônios”, Anselm Grün aponta que a falta de moderação do mal significa exatamente não levar em conta as circunstâncias em que determinados comportamentos devem ser observados; “no momento errado aconselham o que é certo, e com isso o transforma em errado”. São atitudes diabólicas, o que separa, coloca as leis e as tradições arcaicas acima do amor.

 

O livro salienta que no monaquismo antigo, as chamadas técnicas dos demônios, são na realidade mecanismos da psique humana, caminhos engenhosos pelos quais os pensamentos e paixões tentam dominar o ser humano.

 

Descreve a chamada doutrina dos oito vícios, desenvolvida por Evágrio Pôntico e Cassiano: Gula, Luxuria, Cobiça, Tristeza, Ira, Acídia, Vaidade e Orgulho. Sendo que para ele, os três primeiros, Gula, Luxuria e Cobiça são “instintos básicos, que fazem parte da natureza humana; devem ser integrados, é preciso que lhe seja imposta a reta medida”. Os três seguintes; Tristeza, Ira, Acídia, são complexos de ser superados, exigindo; “equilíbrio da alma e uma maturidade interior, que só podemos chegar quando nos ocupamos e nos abrimos sem reservas para Deus”. A Vaidade e o Orgulho, são as mais difíceis de se combater, sendo necessário; “sinceridade para consigo mesmo e para relação com Deus”, utilizando-se nessa luta do método antirrético.

 

Por fim, expõe que não se deve desgastar com o mal, e ter sim, maturidade em lidar com ele, aprender a transformá-lo, com toda tranquilidade da alma (ataraxia).  Resumindo, a convivência com o mal, como a descrita pelo monaquismo antigo, Anselm Grün utiliza-se das palavras de um psicólogo da atualidade, Andrew Bard Schmookler:

 

“O bem não irá governar o mundo no dia em que vencer o mal, mas sim no dia em que nosso amor ao bem não pretenda mais realizar-se como triunfo sobre o mal. Quando a paz vier, ela não será criada pelos que de si fizeram santos, mas sim pelos que com humildade aceitaram sua condição de pecadores”.

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